terça-feira, 3 de maio de 2011

Pesquisas

Ensino religioso no Brasil estimula o preconceito e a intolerância

Estudo liderado pela professora Débora Diniz afirma que livros didáticos mais aceitos pelas escolas públicas promovem a homofobia e pregam o cristianismo
João Campos - Da Secretaria de Comunicação da UnB


Pesquisa da Universidade de Brasília conclui que o preconceito e a intolerância religiosa fazem parte da lição de casa de milhares de crianças e jovens do ensino fundamental brasileiro. Produzido com base na análise dos 25 livros de ensino religioso mais usados pelas escolas públicas do país, o estudo é apresentado no livro Laicidade: O Ensino Religioso no Brasil, que será lançado às 16h desta terça-feira, 22 de junho, no auditório do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (CEAM) da UnB.

“O estímulo à homofobia e a imposição de uma espécie de ‘catecismo cristão’ em sala de aula são uma constante nas publicações”, afirma uma das autoras do trabalho, a antropóloga e professora do Departamento de Serviço Social, Débora Diniz.

A pesquisa analisou os títulos mais aceitos pelas escolas do governo federal, segundo informações do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. A imagem de Jesus Cristo aparece 80 vezes mais do que a de uma liderança indígena no campo religioso - limitada a uma referência anônima e sem biografia -, 12 vezes mais que o líder budista Dalai Lama e ainda conta com um espaço 20 vezes maior que Lutero, referência intelectual para o Protestantismo (Calvino nem mesmo é citado).

O estudo aponta que a discriminação também faz parte da tarefa. Principalmente contra homossexuais. “Desvio moral”, “doença física ou psicológica”, “conflitos profundos” e “o homossexualismo não se revela natural” são algumas das expressões usadas para se referir aos homens e mulheres que se relacionam com pessoas do mesmo sexo. Um exercício com a bandeira das cores do arco-íris acaba com a seguinte questão: “Se isso (o homossexualismo) se tornasse regra, como a humanidade iria se perpetuar?”.

A pesquisadora Débora Diniz alerta que o estímulo ao preconceito chega ao ponto de associar uma pessoa sem religião ao nazismo – ideologia alemã que tinha como preceitos o racismo e o anti-semitismo, na primeira metade do século XX. “É sugerida uma associação de que um ateu tenderia a ter comportamentos violentos e ameaçadores”, observa. “Os livros usam de generalizações para levar a desinformação e pregar o cristianismo”, completa a especialista, uma das três autoras da pesquisa.

LEI - Os números contrastam com a previsão da Lei de Diretrizes e Base da Educação de garantir a justiça religiosa e a liberdade de crença. De número 9475, e em vigor desde 1997, a lei regulamenta o ensino de religião nas escolas brasileiras. “Há uma clara confusão entre o ensino religioso e a educação cristã”, afirma Débora Diniz. A antropóloga reforça a imposição do catecismo. “Cristãos tiveram 609 citações nos livros, enquanto religiões afro-brasilieras, tratadas como ‘tradições’, aparecem em apenas 30 momentos”, comenta a especialista.

O estudo, realizado entre março e julho de 2009, ainda revela a tênue fronteira entre as editoras responsáveis pelas publicações e a pregação religiosa. A editora FTD, por exemplo, pertence aos irmãos Maristas, sociedade religiosa nascida em 1817, na França. O interesse comercial com o material escolar surge representado pelas editoras Ártica e Scipione, que formam a Abril de Educação, líder no mercado de livros didáticos no setor privado. “É esse contexto nebuloso de relações e interesses que envolve a pesquisa” diz Débora.

Ainda foram analisadas as editoras Saraiva, Moderna e Dimensão e as religiosas Vozes, Paulus Paulinas, Vida e Edições Loyola.

SEM REGULAMENTAÇÃO

Para a psicóloga e uma das autoras do livro, Tatiana Lionço, os problemas do ensino religioso no Brasil vem da falta de regulação por parte do Estado. Ela explica que, antes de ir parar nas mochilas de crianças e jovens, todo material didático passa por uma avaliação de uma banca de profissionais do Programa Nacional do Livro Didático, vinculado ao Ministério da Educação. Todos, menos os de Religião. “Não há qualquer tipo de controle. O resultado é a má formação dos alunos”, comenta a professora.

A especialista ainda questiona o modelo de ensino religioso nas escolas do país com base no princípio constitucional de que o Estado deveria ser laico (neutro em relação às religiões). “Se o Estado deveria ser laico, por que ensinar religião nas escolas?”, provoca. “Se a religião for tratada na sala de aula, tem de ser de forma responsável e diversificada”, acrescenta a psicóloga. As 112 páginas da publicação, lançada pelas editoras UnB e Letras Livres, ainda conta com a contribuição da assistente social Vanessa Carrião, do instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero.




Reportagem

Trago hoje uma entrevista com a antropóloga e documentarista Débora Diniz, na qual ela detalha um pouco algumas questões que já haviam sido levantadas há quase um ano quando do lançamento dos resultados de uma pesquisa da UnB.

ISTOÉ – O ensino religioso nas escolas públicas, num Estado laico como o Brasil, é legítimo?

DEBORA DINIZ – Sim e não. Sim porque está previsto pela Constituição. E não quando se trata da coerência com o pacto político. Chamo de coerência a harmonia com os outros princípios constitucionais: da liberdade e do pluralismo religiosos e da separação entre o Estado e as igrejas. Falsamente, se pressupõe que religião seria um conteúdo necessário para a formação da cidadania.

ISTOÉ – O pluralismo religioso é respeitado nas escolas públicas?

DEBORA DINIZ – Não. A Lei de Diretrizes e Bases delega aos Estados o poder sobre a definição dos conteúdos e quem são os professores habilitados. Isso não acontece com nenhuma outra matriz disciplinar no País. A LDB diz que o ensino religioso não pode ser proselitista. Apesar disso, legislações de vários Estados – como a do Rio de Janeiro – afirmam que tem de ser confessional. Determinam que seja católico, evangélico.

ISTOÉ – As escolas viraram igrejas?

DEBORA DINIZ – As aulas de ensino religioso, obrigatórias nas escolas públicas, se transformaram num espaço permeável ao proselitismo. Não é possível a oferta do ensino religioso confessional sem ser proselitista. Se formos para o sentido dicionarizado da palavra proselitismo, é professar um ato de fé. É a catequização. O proselitismo é um direito das reli­giões. Mas isso pode ocorrer na escola pública? A LDB diz que não.

ISTOÉ – É possível haver ensino religioso sem ser proselitista?

DEBORA DINIZ – É. A resposta de São Paulo foi defini-lo como a história, a filosofia e a sociologia das religiões.

ISTOÉ – São Paulo seria o melhor exemplo de ensino religioso no País?

DEBORA DINIZ – No que diz respeito ao decreto estadual, segundo o qual o ensino não deve ser confessional, sim. Mas se é o melhor exemplo na sala de aula, não temos pesquisas no Brasil para afirmar isso. A LDB diz que a matrícula é facultativa. Então, também devemos perguntar: o que a criança faz quando não está na aula de religião?

ISTOÉ – O ensino religioso, da forma como está configurado, é uma ameaça à liberdade religiosa?

DEBORA DINIZ – É. Quanto mais confessional for a regulamentação dos Estados, quanto mais os concursos públicos forem como o do Rio – em que o indivíduo tem de apresentar um atestado da comunidade religiosa a que pertence e, caso mude de religião, perde o concurso –, maior é a ameaça. A liberdade religiosa está ameaçada no País e a justiça religiosa também.

ISTOÉ – Há uma tentativa de privilegiar uma ou outra religião?

DEBORA DINIZ – Quase todos os Estados se apropriam do que aconteceu no Rio, nominando as religiões dos professores. No Ceará, por exemplo, o professor tem de ter formação em escolas teológicas. Mas religiões afro-brasileiras não têm a composição de uma teologia formal. Essa exigência privilegia os católicos e os protestantes.

ISTOÉ – Por que o MEC não define o conteúdo do ensino religioso?

DEBORA DINIZ – Há uma falsa compreensão de que o fenômeno religioso é um saber para iniciados, e não para especialistas laicos. Também há um equívoco sobre o que define o pacto político num Estado laico. O fenômeno religioso não é anterior ao fato político. Religião não pode ter um status que não se subordine ao acordo constitucional e legislativo. Isso é verdade em algumas coisas, tanto que o discurso do ódio não é autorizado. O debate sobre a criminalização da homofobia causa tanto incômodo às comunidades religiosas porque resultará em restrição de liberdade de expressão. Não se poderá dizer que ser gay é grave perversão, como algumas fazem atualmente.

ISTOÉ – Os livros didáticos dizem…

DEBORA DINIZ – Dizem porque há essa lacuna de regulação e de fiscalização. Há uma subordinação do nosso pacto político ao fato religioso. O que é um equívoco. Também há uma falsa presunção de que o saber religioso não possa ser revisado. O MEC tem um painel em que todas as controvérsias científicas são avaliadas por uma equipe que diz o que pode e o que não pode entrar nos livros didáticos. A despeito de pequenas comunidades no campo da biologia dizerem que criacionismo é uma teoria legítima sobre a origem do mundo, o filtro do MEC diz que criacionismo não é ciência. Por que, então, o MEC não define o que pode entrar nos livros de ensino religioso e os parâmetros curriculares?

ISTOÉ – O que os livros didáticos de religião pregam?

DEBORA DINIZ – Avaliamos 25 livros didáticos de editoras religiosas e das que têm os maiores números de obras aprovadas pelo MEC para outras disciplinas. Expressões e valores cristãos estão presentes em 65% deles. Expressões da diversidade cultural e religiosa brasileira, como religiões indígenas ou afro-brasileiras, não alcançam 5%. Muitas tratam questões como a homofobia e a discriminação contra crianças deficientes de uma maneira que, se fossem submetidas ao crivo do MEC, seriam reprovadas. A retórica sobre os deficientes é a pior possível. A representação simbólica é de quem é curado, alguém que é objeto da piedade, que deixa de ser leproso e de ser cego. É a do cadeirante dizendo obrigado, num lugar de subalternidade.

ISTOÉ – A submissão ao sagrado é estimulada?

DEBORA DINIZ – É uma submissão ao sagrado, à confessionalidade. Mas a confessionalidade não se confunde com o sagrado. O sentido do sagrado pode ser explicado. No caso do “Alcorão”, é possível explicar que a escrita tem relação com a história do islamismo. Não precisamos de livros que violem o sagrado, que digam que Maria não era virgem. Mas eles não precisam se submeter à confessionalidade, dizer que há só uma verdade.

ISTOÉ – Há um estímulo ao preconceito e à intolerância nos livros?

DEBORA DINIZ – Sem dúvida. Há a expressão da intolerância à diversidade – das pessoas com deficiência, da diversidade sexual e religiosa, das minorias étnicas. Há, também, uma certa ironia com as religiões neopentecostais.

ISTOÉ – A ideia da supremacia moral dos que têm religião é defendida?

DEBORA DINIZ – É. Há equívocos históricos e filosóficos, como a associação de ­Nie­tz­s­che ao nazismo. As pessoas sem Deus são representadas como uma ameaça à própria ideia do humanismo. É muito grave a representação dos ateus. Isso pode gerar desconforto entre as crianças cujas famílias não professem nenhuma religião. Já que, nos livros, elas estão representadas como aquelas que mataram Deus e associadas simbolicamente a coisas terríveis, como o nazismo.

ISTOÉ – As aulas facultativas podem se tornar uma armadilha?

DEBORA DINIZ – Sem dúvida. A criança terá de explicar suas crenças, o que deveria ser matéria de ética privada. Pior: ao sair da aula com um livro como esse, as crianças talvez tenham de explicar por que não têm Deus.

ISTOÉ – Não há reflexões históricas sobre o significado das religiões?

DEBORA DINIZ – Nenhuma. Há uma enorme dificuldade de nominar as comunidades indígenas como possível religião. Elas possuem tradições e práticas religiosas ou magia. No caso das afro-brasileiras, também se fala em tradição.

ISTOÉ – O que levou o Estado a proteger o ensino religioso na Constituição?

DEBORA DINIZ – Foi uma concessão a comunidades religiosas numa disputa sobre o lugar de Deus e da religiosidade na Constituição. A religião foi mantida no que caracterizaria a vida boa e a formação da cidadania. Isso é um equívoco. A religião pode ser protegida pelo Estado, mas não no espaço de promoção da cidadania que é a escola.

ISTOÉ – O ensino religioso está ganhando ou perdendo espaço no mundo?

DEBORA DINIZ – Essa é uma controvérsia permanente. Nos Estados Unidos, um país bastante religioso, não está na escola pública. Na França, o país mais laico do mundo, também não. Exceto na região da Alsácia-Mosele. Na Bélgica e no Reino Unido está. Esses países hoje enfrentam com muita delicadeza a islamização de suas sociedades. Na Alemanha, grupos islâmicos já começaram a exigir o ensino de sua religião nas escolas públicas.

ISTOÉ – Mas na França também há o outro lado, de proibirem vestimentas…

DEBORA DINIZ – Esse é o paradoxo que a França enfrenta neste momento, sobre como respeitar o modelo da neutralidade. A lei do país proíbe símbolos religiosos ostensivos nas escolas públicas – cruz grande, solidéu, véu. O que o outro lado vai dizer? Que isso viola um princípio fundamental, que é a expressão das crenças individuais estar no próprio corpo.

ISTOÉ – Quais são os desafios do ensino religioso no Brasil?

DEBORA DINIZ – São gigantescos e podem ser divididos em três esferas. Uma é a esfera legal. O ensino religioso está sob contestação nos foros formais do Estado: no Supremo, no MEC e no Ministério Público Federal. Além de a lei do Rio de Janeiro estar sendo contestada no Supremo, há uma ação da Procuradoria-Geral da República contra a concordata Brasil-Vaticano, assinada pelo presidente Lula em 2008.

ISTOÉ – E do que trata esta ação?

DEBORA DINIZ – Um artigo da concordata prevê que o ensino religioso na escola pública seja, necessariamente, católico e confessional. Isso é inconstitucional. Estamos falando da estrutura da democracia. Segundo o ministro Celso de Mello, em toda a história do Supremo, só tínhamos tido uma ação que tocava na questão da laicidade do Estado. Isso foi nos anos 40. Agora, temos pelo menos duas. A segunda esfera é como o ensino religioso pode ou não pode ser implementado. O MEC precisa definir quem serão os professores, como serão habilitados e quais conteúdos serão ensinados. A terceira esfera é a sala de aula, a garantia de que vai ser um ensino facultativo e de que o proselitismo religioso será proibido.

* Débora Diniz é antropóloga e documentarista. Aos 41 anos, ela já recebeu 78 prêmios por sua atua­ção como pesquisadora e cineasta. Professora da Universidade de Brasília, Debora é autora de oito livros, sendo o último deles “Laicidade e En­sino Religioso no Brasil”.

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segunda-feira, 11 de abril de 2011

Reportagem

Autor: Carlos Orsi

Nos 14 anos em que trabalhei no Grupo Estado, muitas vezes me vi defendendo — em mesas de bar, festas de família, e até na área de cafezinho da redação — os editoriais do Estadão da acusação de que seriam ranhetões, “direitões”, excessivamente conservadores.

Claro, sempre houve um prisma conservador filtrando as análises publicadas na vetusta página 3, mas eu insistia em apontar que, em muitos casos, a essência do que se dizia ali era, se não correta, ao menos apoiada numa argumentação firme o bastante para não poder ser desprezada com um dar de ombros ou o bom e velho “se o Estadão defende X, então X deve ser uma merda”.

Mas eis que, neste sábado, eu abro o jornal e vejo um texto que reduz toda a minha linha argumentativa a pó de traque. Trata-se da análise feita pelo jornal da tragédia do Realengo. O editorial Que nos sirva de alerta não só se abstém de comentar o caráter de fanatismo religioso do crime — mais sobre isso adiante — como ainda joga com o clichê da “falência dos valores humanos em seu embate permenente com o pragmatismo da sociedade de consumo” e, mirabile dictu!, ainda encontra razões para atacar um criador de videogames dos Estados Unidos.

A hipótese de uma “falência dos valores humanos” diante do “pragmatismo” pressupõe uma época, em tempos idos, onde os valores humanos eram uma sólida corporação — mas que, no tempo que separa essa época áurea do presente, foi sendo acossada pelas pressões do “pragmatismo da sociedade de consumo” contemporânea, entrou em concordata e agora caminha para a liquidação extrajudicial.

Fico imaginando, quando foi que os valores humanos se sobrepuseram ao pragmatismo? Em tempos homéricos, quando Agamenon sacrificou a própria filha para garantir o sucesso da guerra contra Troia? Em tempos bíblicos, quando Abraão não hesitou em prostituir a própria esposa para atrair a boa vontade do faraó do Egito? Talvez na Atenas dos filósofos, sustentada por trabalho escravo? Ou na Roma dos jogos de gladiadores?

Talvez o editorialista estivesse se referindo à Idade Média? As Cruzadas talvez tenham sido impulsionadas mais por valores do que por considerações pragmáticas (o que nos deveria fazer parar para pensar se ter “valores” é uma boa ideia, afinal). Mas então, o que dizer da Quarta Cruzada, que desistiu de atacar os muçulmanos e optou pelo pragmatíssimo saque de Constantinopla?

Parafraseando Bertrand Russell, o que a história ensina é que, no geral, o ser humano não age de acordo com seus valores; em vez disso, ele escolhe os valores que melhor justificam o que já estava com vontade de fazer. Esse pragmatismo, tão cínico quanto, muitas vezes, inconsciente, não foi inventado pela sociedade de consumo ou pela globalização. Está conosco desde que descemos das árvores.

O que me traz ao segundo ponto do editorial, a condenação do designer de videogames que criou um jogo sobre massacres escolares — um jogo que o assassino de Realengo provavelmente nunca viu — e a olímpica omissão da clara inspiração bíblica do crime.

Os “valores” que o assassino escolheu para justificar o que havia decidido fazer não são os de um adolescente tarado por first-person-shooters, mas os do Levítico, um dos livros mais psicopáticos da Bíblia, todo obcecado com questões de pureza e de sacrifícios de sangue. Por exemplo, compare este trecho do livro supostamente sagrado:

19 A mulher que tiver o corrimento menstrual ficará durante sete dias na impureza das regras. Quem a tocar ficará impuro até à tarde. 20 O lugar em que ela deitar ou sentar durante as regras ficará impuro. 21 Quem tocar o leito dela deverá lavar as vestes, tomar banho e ficará impuro até à tarde. 22 Quem tocar um móvel no qual ela esteve sentada deverá lavar as vestes, tomar banho e ficará impuro até à tarde. 23 Se o objeto tocado estiver sobre o leito ou sobre o assento em que esteve sentada, ficará impuro até à tarde. 24 Se um homem dormir com ela, ficará contaminado com a impureza e estará impuro durante sete dias, ficando impuro também o leito em que dormir.

Com este trecho da carta-testamento do assassino:

Primeiramente deverão saber que os impuros não poderão me tocar sem usar luvas, somente os castos ou os que perderam suas castidades após o casamento e não se envolveram em adultério poderão me tocar sem usar luvas, ou seja, nenhum fornicador ou adúltero poderá ter contato direto comigo, nem nada que seja impuro poderá tocar em meu sangue.

A biomédica e escritora Cristina Lasaitis sugere, em seu blog, que o assassino sofria de uma doença mental e que o discurso religioso foi apenas o modo que ele encontrou para dar forma e expressão a seus conflitos íntimos.

Se tivesse outro tipo de formação e outras referências culturais, talvez o assassino escrevesse uma carta com alusões a O Senhor dos Anéis, Guerra nas Estrelas ou, sim, até a videogames (e fico imaginando a onda de caça às bruxas que a imprensa e as autoridades desencadeariam, fosse esse o caso: basta lembrar o circo armado há alguns anos contra os livros de RPG).

Mas como a vestimenta da motivação foi religiosa, o editorialista prefere passar a borracha e culpar a decadência do ocidente e um remoto criador de videogames.

Mas, sim, é bem provável que a religião não tenha tido nada a ver com o crime, da mesma forma que Tolkien, George Lucas — e o game designer — não teriam tido nada a ver, caso as referências da carta fossem outras.

Para encerrar, porém, deixo aqui um fato que você provavelmente não verá mencionado em momento algum da cobertura da tragédia de Realengo: os dois maiores massacres de civis, fora de contexto militar, da história recente foram cometidos por motivação religiosa: o 11 de setembro e o suicídio coletivo de Jonestown. Tire disso a conclusão que quiser.


Texto retirado do site: http://carlosorsi.blogspot.com/2011/04/de-tragedias-e-de-valores.html

domingo, 3 de abril de 2011

Reportagem

Veja a lista de 28 "fichas-sujas" que querem validar candidaturas no Supremo


Improbidade administrativa

Alfredo Pastori (PSL-MG), candidato a deputado federal

Antonio Dias (PDT-SP), candidato a deputado federal

Arnaldo Vianna (PDT-RJ), candidato a deputado federal

Beti Pavin (PMDB-PR), candidata a deputada estadual

Dr. Gilberto Marin (PMDB-PR), candidato a deputado estadual

João Caramez (PSDB-SP), candidato a deputado estadual

Neguinho Teixeira (PSDC-BA), candidato a deputado estadual

Netinho da Saúde (PCdoB-RO), candidato a deputado estadual

Raul Freixes (PTdoB-MS), candidato a deputado estadual

Tereza Jucá (PMDB-RR), candidata a deputada federal

Rejeição de contas

Adib Elias (PMDB-GO), candidato a senador

Bado Venâncio (PSL-PB), candidato a deputado estadual

Caio Riela (PTB-RS), candidato a deputado federal

Ciro Roza (DEM-SC), candidato a deputado estadual

Edson Dantas (PSB-BA), candidato a deputado federal

Gilson Gomes (PSDC-ES), candidato a deputado estadual

Itamar Rios (PTB-BA), candidato a deputado estadual

Júnior de Paulo (PRP-PE), candidato a deputado estadual

Melinho (PSDB-RS), candidato a deputado estadual

Paulo Pastori (PTC-SP), candidato a deputado estadual

Compra de votos

Dr. Dirceu (PSDB-GO), candidato a deputado estadual

Jacó Maciel (PDT-PB), candidato a deputado estadual

José Riva (PP-MT), candidato a deputado estadual

Leonice da Paz (PDT-SP), candidata a deputada estadual

Vitor Sapienza (PPS-SP), candidato a deputado estadual

Renúncia ao mandato

Luiz Sefer (PP-PA), candidato a deputado estadual

Gilmar Carvalho (PR-SE), candidato a deputado estadual

Abuso do poder econômico

Bernardete Ten Caten (PT-PA), candidata a deputada estadual


Reconhece alguém?

quinta-feira, 17 de março de 2011

Artigo



A revolução darwiniana
Daniel Dennett

Não há futuro num mito sagrado. Por quê? Por nossa curiosidade. […] Seja o que for que consideremos precioso, não podemos protegê-lo da nossa curiosidade porque, sendo quem somos, uma das coisas que consideramos preciosa é a verdade. O nosso amor pela verdade é sem dúvida um elemento central no sentido que damos à nossa vida. Em qualquer caso, a ideia de que possamos preservar o sentido da nossa vida à força de nos enganarmos é uma ideia mais pessimista, mais niilista do que eu, pela parte que me toca, consigo engolir.
Se isso fosse o melhor que se pode fazer, concluiria que afinal nada tinha importância. […]
A nossa curiosidade sobre as coisas assume diferentes formas, como Aristóteles assinalou no tratado da ciência humana. O seu esforço pioneiro para classificá-las ainda faz muito sentido. Aristóteles identificou quatro questões básicas sobre qualquer coisa que queiramos responder, e chamou-as aitia, um termo gregoverdadeiramente impossível de ser traduzido, tradicional mas desajeitadamente traduzido por quatro “causas”.
1. Podemos ter curiosidade sobre aquilo de que algo é feito, a sua matéria ou causa material.
2. Podemos ter curiosidade sobre a forma (ou estrutura ou configuração) que essa matéria assume, a sua causa formal.
3. Podemos ter curiosidade sobre a sua origem, como começou, ou sobre a sua causa eficiente.
4. Podemos ter curiosidade sobre o seu propósito ou objetivo ou finalidade (como na pergunta “Será que os fins justificam os meios?”), a que Aristóteles chamou o seu telos, que por vezes se traduz em português, desajeitadamente, como “causa final”.
É preciso alguma ginástica para fazer estas quatro aitia aristotélicas corresponderem a respostas às típicas perguntas portuguesas “o quê, onde, quando e por que”. A correspondência é apenas aproximada. As perguntas que começam com “por que”, contudo, normalmente pedem a quarta “causa” de Aristóteles, o telos de uma coisa. Por quê?, perguntamos. Para que serve? Como dizemos às vezes: qual é a sua razão de ser? Os filósofos e os cientistas reconheceram, durante centenas de anos, que estas perguntas pelo “por que” são problemáticas e de tal modo distintas que o estudo a que dão lugar merece um nome: teleologia.
Uma explicação teleológica é a que explica a existência ou ocorrência de algo fazendo apelo a um objetivo ou propósito a que a coisa serve. Os artefatos são os casos mais óbvios; o objetivo ou propósito de um artefato é a função que o seu criador concebeu para ele. Não há controvérsia sobre o telos de um martelo: serve para martelar e tirar pregos. O telos de artefatos mais complexos, como câmaras de vídeo, caminhões ou scanners é, na pior das hipóteses, mais óbvio. Mas mesmo nos casos mais simples, podemos ver que sempre há um problema de fundo presente:
— Por que razão estás a serrar essa tábua?
— Para fazer uma porta.
— E para que é a porta?
— Para proteger a minha casa.
— E por que razão queres proteger a tua casa?
— Para poder dormir descansado.
— E por que razão queres dormir descansado?
— Vai passear e deixa de me fazer perguntas tolas.

Essa troca de palavras revela um dos problemas da teleologia: para que isso tudo? Que causa final podemos apresentar para completar essa hierarquia de razões? Aristóteles tinha uma resposta: Deus, o Motor Imóvel, o para-quê no qual acabam todos os para-quês. A ideia, que foi aproveitada pelas tradições cristãs, judaicas e islâmicas, é que todos os nossos propósitos derivam em última análise de Deus. A ideia é sem dúvida natural e atraente. Se olharmos para um relógio e nos perguntarmos por que razão tem um vidro transparente, é óbvio que a resposta remete às necessidades e desejos das pessoas que usam relógios, que querem saber as horas olhando para o mostrador etc.. Se não fossem estes fatos sobre nós — para quem o relógio foi criado —, não haveria explicação do “por que” do vidro transparente. Se o universo foi criado por Deus para cumprir os seus propósitos, então todos os propósitos que possamos encontrar no próprio universo têm, em última análise, de estar subordinados aos propósitos de Deus. Mas quais são os propósitos de Deus? Isso é algo misterioso. Uma maneira de afastar o desconforto acerca desse mistério é mudar ligeiramente o assunto. Em vez de responder a pergunta pelo “por que” com uma resposta do tipo “porque” (o tipo de resposta que ela parece exigir), as pessoas substituem muitas vezes a pergunta “por quê?” pela pergunta “como?”, e tentam responder esta última contando uma história sobre como Deus criou a nós e ao resto do universo, sem perder demasiado tempo com a questão de saber exatamente por que razão poderá Ele ter desejado fazer tal coisa. A pergunta pelo “como” não se encaixa na lista de Aristóteles, mas já eram perguntas e respostas populares muito antes de Aristóteles ter apresentado sua análise. As respostas às maiores perguntas pelo “como” são cosmogonias, histórias sobre como o cosmos, o universo inteiro e tudo o que ele contém, passou a existir. O livro do Gênesis é uma cosmogonia, mas há muitos outros. Os cosmólogos que exploram a hipótese do Big Bang, e que especulam sobre os buracos negros e as supercordas, são criadores atuais de cosmogonias. Nem todas as cosmogonias seguem o padrão de um artífice. Algumas envolvem um “ovo do mundo” depositado nas “Profundezas” por uma ave mítica qualquer, e outras envolvem sementes que se deitam à terra e se cuidam. A imaginação humana não dispõe de muitos recursos de que lançar mão quando se confronta com uma questão tão intrigante. Um mito antigo da criação fala de um “Senhor que existe por si” e que, “com um pensamento, criou as águas, depositando nelas uma semente que se transformou num ovo dourado, nascendo ele próprio desse ovo como Brama, o progenitor dos mundos” (Muir 1972, Vol. IV, p. 26).
E qual era o objetivo de todas essas posturas de ovos, sementeiras e construção de mundos? Ou, já agora, qual é o objetivo do Big Bang? Os cosmólogos atuais, à semelhança de muitos dos seus antecessores ao longo da história, apresentam uma história divertida, mas preferem fugir da questão teleológica do “por que”. Será que o universo existe por uma razão qualquer? Será que as razões têm um papel qualquer que se possa compreender nas explicações do cosmos? Será que algo poderia existir por uma razão, sem que se tratasse da razão de alguém? Ou será que as razões — as causas do tipo 4 de Aristóteles — só são apropriadas nas explicações das obras e feitos de pessoas ou de outros agentes racionais? Se Deus não é uma pessoa, um agente racional, um Artífice Inteligente, que sentido poderá ter a mais grandiosa pergunta pelo “por que”? E se a maior pergunta pelo “por que” não tem qualquer sentido, como poderão outras perguntas pelo “por que”, menores e mais simples, ter sentido? Uma das contribuições fundamentais de Darwin é mostrar-nos uma nova maneira de dar sentido às perguntas pelo “por que”. Queiramos ou não, a ideia de Darwin oferece-nos uma maneira — clara, convincente e espantosamente versátil — de dissolver estes velhos enigmas. É preciso tempo para nos habituarmos à sua ideia, e ela é muitas vezes mal aplicada, mesmo pelos seus amigos mais dedicados. […] O que ganhamos é, pela primeira vez, um sistema explicativo estável que não anda às voltas nem entra numa espiral infinita de mistérios.
Aparentemente, algumas pessoas preferem a regressão infinita de mistérios, mas hoje em dia o custo desta estratégia é proibitivo: deixar-se enganar. Podemos enganar a nós próprios, ou deixar essa tarefa a outras pessoas, mas não há uma forma intelectualmente defensável de reconstruir as poderosas barreiras à compreensão que Darwin derrubou.
autor: Daniel Dennett
tradução: Álvaro Augusto Fernandes
original: A Perigosa Ideia de Darwin. Lisboa: Temas e Debates. 2001, pp. 20-24.
fonte: Crítica

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Reportagem

Breve reflexão

Breve reflexão

Sobre história e cultura árabes e sobre violência e hipocrisia ocidentais. Por Mino Carta. Foto:Philippe Body/Hemis.FR/AFP

Sobre história e cultura árabes e sobre violência e hipocrisia ocidentais

E me vem à mente a Andaluzia, não aquela invadida pelos reis católicos e seus padres vingativos, precursores do nazismo com seus autos de fé, e sim aquela que foi árabe por 700 anos. Quem tiver a ventura de se encontrar com a Alhambra em Granada, ou a Grande Mesquita de Córdoba, ou o Alcazar em Sevilha, não escapará à constatação da grandeza de uma civilização capaz de produzir obras tão deslumbrantes. Comovedoras, poéticas.

Não é que faltem outras provas da extraordinária contribuição da cultura árabe ao progresso da humanidade, e em todos os quadrantes. Por um largo período, séculos e séculos, o pensamento árabe foi decisivo nas artes e nas ciências, da escrita à matemática, da arquitetura à astronomia. Mas eu retorno, neste instante, às cidades andaluzas, onde os templos dos conquistadores aceitavam ao seu redor as juderias, os bairros judeus. Bairros e não guetos.

A conveniência entre árabes e judeus era muito diferente daquela que hoje se verifica no Oriente Médio. Pacífica, então, baseada na colaboração e no intercâmbio, feliz, tudo indica, dentro das possibilidades humanas de viver a felicidade. Diga-se que, longe da Grande Mesquita e da juderia que a cerca, ou ao descer da altura risonha onde se planta a Alhambra, Córdoba e Granada apresentam, fisicamente, alguma semelhança com Sorocaba.

Lembranças suscitam ideias e estas nos permitem viajar no tempo e no espaço. Ocorre-me o devaneio de Lawrence da Arábia em contraste à prepotência e à ferocidade dos turcos otomanos, da Grã-Bretanha e da França, que se esmeraram no projeto de fracionar a terra árabe a seu talante e em exclusivo proveito dos seus interesses imperialistas. Atrocidades morais e materiais foram cometidas pelos donos do poder global às margens daquele imenso golfo do Mediterrâneo, e à constante agressão acabaram por unir-se os Estados Unidos, debaixo do olhar condescendente de todo o Ocidente.

Fala-se muito de Hitler, com excelentes motivos, mas ninguém se incomodou com a chacina de 1 milhão e 200 mil armênios perpetrada pelo Império Otomano, o genocídio do começo do século passado. Resta o fato de que o Estado de Israel nasceu de súbito na Palestina, cujos habitantes ficaram exilados em sua própria terra. Pretendeu-se remir o monstruoso pecado do Holocausto, mas também postar o sentinela da civilização ocidental no coração da área humilhada.

E mais ainda pelos senhores locais, que se prestaram ao jogo ocidental, como Mubarak, por exemplo. Com Kaddafi a política das potências do Oeste ficou entre o cinismo e a hipocrisia, à sombra de uma inextinguível tentativa de negociação de paz e bem do fornecimento ininterrupto do petróleo. Vale lembrar que logo depois do golpe de Kaddafi, a aeronáutica líbia foi equipada com os Mirage franceses, enquanto a Alemanha contribuía para a criação na Líbia de uma indústria química de peso e a Itália baixava a cabeça diante da expulsão de 15 mil italianos do território líbio. Quanto aos Estados Unidos, depois de várias tentativas de assassinar o ditador, em 1986 revogaram as sanções econômicas quando Kaddafi aposentou seus projetos nucleares.

Não se esqueça que em 2009 a Grã-Bretanha libertou e devolveu à Líbia o autor do atentado de 1988 no céu de Lockerbie e que a Itália de Berlusconi de alguns anos para cá trata o coronel como grande estadista, recebe-o com pompa, assina com ele acordos de interesse nacional, sem contar aqueles de interesse privado do premier, talvez tomado de inveja por causa do harém do ditador, sempre incluído no seu séquito onde quer que viaje.

Pode parecer estranho que um forte e sadio exemplo de rebelião parta de uma região tão ofendida neste nosso mundo cada vez mais parvo e desigual. Se penso, porém, nas tradições árabes, na cultura de uma civilização que já foi dominante, não me surpreendo. E recordo os monumentos da Andaluzia.

PS. Por intermédio do carteiro e senador Eduardo Matarazzo Suplicy recebemos, Wálter Fanganiello e o acima assinado, uma carta em inglês da senhora Fred Vargas, a repetir suas teses peculiares contra a extradição de Cesare Battisti. Nada de novo, daí a inutilidade de uma resposta, a não ser a seguinte, que adoto como padrão, conforme exemplo do chanceler Antonio Patriota: entre Brasil e Itália foi assinado um tratado de extradição há cerca de 13 anos, o qual, aprovado pelos dois parlamentos, ganhou força de lei. Donde, respeite-se a lei. Não respeitá-la significa rasgar o acordo. Fica a pergunta: se o Brasil acredita em Fred Vargas e desacredita da Justiça do Estado Democrático de Direito italiano, por quais singulares cargas d’água assinou o tratado?