quinta-feira, 17 de março de 2011

Artigo



A revolução darwiniana
Daniel Dennett

Não há futuro num mito sagrado. Por quê? Por nossa curiosidade. […] Seja o que for que consideremos precioso, não podemos protegê-lo da nossa curiosidade porque, sendo quem somos, uma das coisas que consideramos preciosa é a verdade. O nosso amor pela verdade é sem dúvida um elemento central no sentido que damos à nossa vida. Em qualquer caso, a ideia de que possamos preservar o sentido da nossa vida à força de nos enganarmos é uma ideia mais pessimista, mais niilista do que eu, pela parte que me toca, consigo engolir.
Se isso fosse o melhor que se pode fazer, concluiria que afinal nada tinha importância. […]
A nossa curiosidade sobre as coisas assume diferentes formas, como Aristóteles assinalou no tratado da ciência humana. O seu esforço pioneiro para classificá-las ainda faz muito sentido. Aristóteles identificou quatro questões básicas sobre qualquer coisa que queiramos responder, e chamou-as aitia, um termo gregoverdadeiramente impossível de ser traduzido, tradicional mas desajeitadamente traduzido por quatro “causas”.
1. Podemos ter curiosidade sobre aquilo de que algo é feito, a sua matéria ou causa material.
2. Podemos ter curiosidade sobre a forma (ou estrutura ou configuração) que essa matéria assume, a sua causa formal.
3. Podemos ter curiosidade sobre a sua origem, como começou, ou sobre a sua causa eficiente.
4. Podemos ter curiosidade sobre o seu propósito ou objetivo ou finalidade (como na pergunta “Será que os fins justificam os meios?”), a que Aristóteles chamou o seu telos, que por vezes se traduz em português, desajeitadamente, como “causa final”.
É preciso alguma ginástica para fazer estas quatro aitia aristotélicas corresponderem a respostas às típicas perguntas portuguesas “o quê, onde, quando e por que”. A correspondência é apenas aproximada. As perguntas que começam com “por que”, contudo, normalmente pedem a quarta “causa” de Aristóteles, o telos de uma coisa. Por quê?, perguntamos. Para que serve? Como dizemos às vezes: qual é a sua razão de ser? Os filósofos e os cientistas reconheceram, durante centenas de anos, que estas perguntas pelo “por que” são problemáticas e de tal modo distintas que o estudo a que dão lugar merece um nome: teleologia.
Uma explicação teleológica é a que explica a existência ou ocorrência de algo fazendo apelo a um objetivo ou propósito a que a coisa serve. Os artefatos são os casos mais óbvios; o objetivo ou propósito de um artefato é a função que o seu criador concebeu para ele. Não há controvérsia sobre o telos de um martelo: serve para martelar e tirar pregos. O telos de artefatos mais complexos, como câmaras de vídeo, caminhões ou scanners é, na pior das hipóteses, mais óbvio. Mas mesmo nos casos mais simples, podemos ver que sempre há um problema de fundo presente:
— Por que razão estás a serrar essa tábua?
— Para fazer uma porta.
— E para que é a porta?
— Para proteger a minha casa.
— E por que razão queres proteger a tua casa?
— Para poder dormir descansado.
— E por que razão queres dormir descansado?
— Vai passear e deixa de me fazer perguntas tolas.

Essa troca de palavras revela um dos problemas da teleologia: para que isso tudo? Que causa final podemos apresentar para completar essa hierarquia de razões? Aristóteles tinha uma resposta: Deus, o Motor Imóvel, o para-quê no qual acabam todos os para-quês. A ideia, que foi aproveitada pelas tradições cristãs, judaicas e islâmicas, é que todos os nossos propósitos derivam em última análise de Deus. A ideia é sem dúvida natural e atraente. Se olharmos para um relógio e nos perguntarmos por que razão tem um vidro transparente, é óbvio que a resposta remete às necessidades e desejos das pessoas que usam relógios, que querem saber as horas olhando para o mostrador etc.. Se não fossem estes fatos sobre nós — para quem o relógio foi criado —, não haveria explicação do “por que” do vidro transparente. Se o universo foi criado por Deus para cumprir os seus propósitos, então todos os propósitos que possamos encontrar no próprio universo têm, em última análise, de estar subordinados aos propósitos de Deus. Mas quais são os propósitos de Deus? Isso é algo misterioso. Uma maneira de afastar o desconforto acerca desse mistério é mudar ligeiramente o assunto. Em vez de responder a pergunta pelo “por que” com uma resposta do tipo “porque” (o tipo de resposta que ela parece exigir), as pessoas substituem muitas vezes a pergunta “por quê?” pela pergunta “como?”, e tentam responder esta última contando uma história sobre como Deus criou a nós e ao resto do universo, sem perder demasiado tempo com a questão de saber exatamente por que razão poderá Ele ter desejado fazer tal coisa. A pergunta pelo “como” não se encaixa na lista de Aristóteles, mas já eram perguntas e respostas populares muito antes de Aristóteles ter apresentado sua análise. As respostas às maiores perguntas pelo “como” são cosmogonias, histórias sobre como o cosmos, o universo inteiro e tudo o que ele contém, passou a existir. O livro do Gênesis é uma cosmogonia, mas há muitos outros. Os cosmólogos que exploram a hipótese do Big Bang, e que especulam sobre os buracos negros e as supercordas, são criadores atuais de cosmogonias. Nem todas as cosmogonias seguem o padrão de um artífice. Algumas envolvem um “ovo do mundo” depositado nas “Profundezas” por uma ave mítica qualquer, e outras envolvem sementes que se deitam à terra e se cuidam. A imaginação humana não dispõe de muitos recursos de que lançar mão quando se confronta com uma questão tão intrigante. Um mito antigo da criação fala de um “Senhor que existe por si” e que, “com um pensamento, criou as águas, depositando nelas uma semente que se transformou num ovo dourado, nascendo ele próprio desse ovo como Brama, o progenitor dos mundos” (Muir 1972, Vol. IV, p. 26).
E qual era o objetivo de todas essas posturas de ovos, sementeiras e construção de mundos? Ou, já agora, qual é o objetivo do Big Bang? Os cosmólogos atuais, à semelhança de muitos dos seus antecessores ao longo da história, apresentam uma história divertida, mas preferem fugir da questão teleológica do “por que”. Será que o universo existe por uma razão qualquer? Será que as razões têm um papel qualquer que se possa compreender nas explicações do cosmos? Será que algo poderia existir por uma razão, sem que se tratasse da razão de alguém? Ou será que as razões — as causas do tipo 4 de Aristóteles — só são apropriadas nas explicações das obras e feitos de pessoas ou de outros agentes racionais? Se Deus não é uma pessoa, um agente racional, um Artífice Inteligente, que sentido poderá ter a mais grandiosa pergunta pelo “por que”? E se a maior pergunta pelo “por que” não tem qualquer sentido, como poderão outras perguntas pelo “por que”, menores e mais simples, ter sentido? Uma das contribuições fundamentais de Darwin é mostrar-nos uma nova maneira de dar sentido às perguntas pelo “por que”. Queiramos ou não, a ideia de Darwin oferece-nos uma maneira — clara, convincente e espantosamente versátil — de dissolver estes velhos enigmas. É preciso tempo para nos habituarmos à sua ideia, e ela é muitas vezes mal aplicada, mesmo pelos seus amigos mais dedicados. […] O que ganhamos é, pela primeira vez, um sistema explicativo estável que não anda às voltas nem entra numa espiral infinita de mistérios.
Aparentemente, algumas pessoas preferem a regressão infinita de mistérios, mas hoje em dia o custo desta estratégia é proibitivo: deixar-se enganar. Podemos enganar a nós próprios, ou deixar essa tarefa a outras pessoas, mas não há uma forma intelectualmente defensável de reconstruir as poderosas barreiras à compreensão que Darwin derrubou.
autor: Daniel Dennett
tradução: Álvaro Augusto Fernandes
original: A Perigosa Ideia de Darwin. Lisboa: Temas e Debates. 2001, pp. 20-24.
fonte: Crítica

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Reportagem

Breve reflexão

Breve reflexão

Sobre história e cultura árabes e sobre violência e hipocrisia ocidentais. Por Mino Carta. Foto:Philippe Body/Hemis.FR/AFP

Sobre história e cultura árabes e sobre violência e hipocrisia ocidentais

E me vem à mente a Andaluzia, não aquela invadida pelos reis católicos e seus padres vingativos, precursores do nazismo com seus autos de fé, e sim aquela que foi árabe por 700 anos. Quem tiver a ventura de se encontrar com a Alhambra em Granada, ou a Grande Mesquita de Córdoba, ou o Alcazar em Sevilha, não escapará à constatação da grandeza de uma civilização capaz de produzir obras tão deslumbrantes. Comovedoras, poéticas.

Não é que faltem outras provas da extraordinária contribuição da cultura árabe ao progresso da humanidade, e em todos os quadrantes. Por um largo período, séculos e séculos, o pensamento árabe foi decisivo nas artes e nas ciências, da escrita à matemática, da arquitetura à astronomia. Mas eu retorno, neste instante, às cidades andaluzas, onde os templos dos conquistadores aceitavam ao seu redor as juderias, os bairros judeus. Bairros e não guetos.

A conveniência entre árabes e judeus era muito diferente daquela que hoje se verifica no Oriente Médio. Pacífica, então, baseada na colaboração e no intercâmbio, feliz, tudo indica, dentro das possibilidades humanas de viver a felicidade. Diga-se que, longe da Grande Mesquita e da juderia que a cerca, ou ao descer da altura risonha onde se planta a Alhambra, Córdoba e Granada apresentam, fisicamente, alguma semelhança com Sorocaba.

Lembranças suscitam ideias e estas nos permitem viajar no tempo e no espaço. Ocorre-me o devaneio de Lawrence da Arábia em contraste à prepotência e à ferocidade dos turcos otomanos, da Grã-Bretanha e da França, que se esmeraram no projeto de fracionar a terra árabe a seu talante e em exclusivo proveito dos seus interesses imperialistas. Atrocidades morais e materiais foram cometidas pelos donos do poder global às margens daquele imenso golfo do Mediterrâneo, e à constante agressão acabaram por unir-se os Estados Unidos, debaixo do olhar condescendente de todo o Ocidente.

Fala-se muito de Hitler, com excelentes motivos, mas ninguém se incomodou com a chacina de 1 milhão e 200 mil armênios perpetrada pelo Império Otomano, o genocídio do começo do século passado. Resta o fato de que o Estado de Israel nasceu de súbito na Palestina, cujos habitantes ficaram exilados em sua própria terra. Pretendeu-se remir o monstruoso pecado do Holocausto, mas também postar o sentinela da civilização ocidental no coração da área humilhada.

E mais ainda pelos senhores locais, que se prestaram ao jogo ocidental, como Mubarak, por exemplo. Com Kaddafi a política das potências do Oeste ficou entre o cinismo e a hipocrisia, à sombra de uma inextinguível tentativa de negociação de paz e bem do fornecimento ininterrupto do petróleo. Vale lembrar que logo depois do golpe de Kaddafi, a aeronáutica líbia foi equipada com os Mirage franceses, enquanto a Alemanha contribuía para a criação na Líbia de uma indústria química de peso e a Itália baixava a cabeça diante da expulsão de 15 mil italianos do território líbio. Quanto aos Estados Unidos, depois de várias tentativas de assassinar o ditador, em 1986 revogaram as sanções econômicas quando Kaddafi aposentou seus projetos nucleares.

Não se esqueça que em 2009 a Grã-Bretanha libertou e devolveu à Líbia o autor do atentado de 1988 no céu de Lockerbie e que a Itália de Berlusconi de alguns anos para cá trata o coronel como grande estadista, recebe-o com pompa, assina com ele acordos de interesse nacional, sem contar aqueles de interesse privado do premier, talvez tomado de inveja por causa do harém do ditador, sempre incluído no seu séquito onde quer que viaje.

Pode parecer estranho que um forte e sadio exemplo de rebelião parta de uma região tão ofendida neste nosso mundo cada vez mais parvo e desigual. Se penso, porém, nas tradições árabes, na cultura de uma civilização que já foi dominante, não me surpreendo. E recordo os monumentos da Andaluzia.

PS. Por intermédio do carteiro e senador Eduardo Matarazzo Suplicy recebemos, Wálter Fanganiello e o acima assinado, uma carta em inglês da senhora Fred Vargas, a repetir suas teses peculiares contra a extradição de Cesare Battisti. Nada de novo, daí a inutilidade de uma resposta, a não ser a seguinte, que adoto como padrão, conforme exemplo do chanceler Antonio Patriota: entre Brasil e Itália foi assinado um tratado de extradição há cerca de 13 anos, o qual, aprovado pelos dois parlamentos, ganhou força de lei. Donde, respeite-se a lei. Não respeitá-la significa rasgar o acordo. Fica a pergunta: se o Brasil acredita em Fred Vargas e desacredita da Justiça do Estado Democrático de Direito italiano, por quais singulares cargas d’água assinou o tratado?

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Artigo

Artigo retirado do site ateus.net

O universo tem um propósito? Improvável!

Talvez você esperasse uma afirmação mais forte, num sentido ou noutro. Mas, como cientista, não acho que possa fazê-lo. Enquanto nada na biologia, química, física, geologia, astronomia ou cosmologia jamais forneceu evidências diretas de haver propósito na natureza, a ciência nunca poderá provar acima de qualquer dúvida que tal propósito não existe. Como disse Carl Sagan, em outro contexto: "ausência de evidência não é evidência de ausência".

Naturalmente, nada impediria que a ciência descobrisse evidências positivas de orientação ou propósito divinos, se estas estivessem ao nosso alcance. Por exemplo, se amanhã à noite olhássemos as estrelas, e elas estivessem organizadas em um padrão que diz “Estou aqui”, acho que até os céticos mais aferrados da ciência suspeitariam que algo está acontecendo.

Mas nenhum desses sinais inequívocos foi encontrado entre os milhões e milhões de conjuntos de dados que coletamos a respeito do mundo natural ao longo de séculos de exploração. E é precisamente essa a razão pela qual um cientista pode concluir que é muito improvável haver qualquer propósito divino. Se um criador tivesse tal propósito, poderia escolher demonstrá-lo de uma forma um pouco mais clara aos habitantes de sua criação.

Sempre estaremos livres, como fazem algumas pessoas, para interpretar as leis da natureza como indícios de propósito; por exemplo, o Papa Pio quando o físico belga George Lemaitre demonstrou que a teoria geral da relatividade de Einstein implicava que o universo teve um começo. Isso foi interpretado pelo Papa como uma prova científica do Gênesis, mas Lemaitre pediu que parasse de fazer tal afirmação. O big bang, como tornou-se conhecido, pode ser interpretado em termos de origem divina, mas pode ser igualmente interpretado como remover deus completamente da equação. A conclusão está na mente do observador, e está fora do âmbito da teoria e predição científicas.

Finalmente, mesmo se o universo tiver um propósito oculto, tudo o que sabemos sobre o cosmos sugere que não desempenhamos um papel central nele. Nós somos, enquanto planeta, cosmicamente insignificantes. A vida na terra acabará, como provavelmente já acabou em incontáveis outros planetas no passado, e acabará no futuro. Todas as estrelas e todas as galáxias que vemos poderiam desaparecer num instante, e o universo continuaria comportando-se mais ou menos como o faz agora. A natureza parece ser tão impassível quanto é inflexível.

Portanto, religiões organizadas, que colocam a humanidade no centro de algum plano divino, parecem ser um afronta à nossa dignidade e à nossa inteligência. Um universo sem propósito não deveria nos deprimir, tampouco sugerir que nossas vidas são inúteis. Como parte de uma inspiradora história cósmica, nós nos vemos num remoto planeta neste remoto canto do universo, dotados de inteligência e autoconsciência. Nós não deveríamos nos desesperar, mas humildemente nos alegrar em aproveitar ao máximo esses dons, e celebrar nosso breve momento ao sol.


Lawrence M. Krauss é professor de física e astronomia na Case Western Reserve University.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Texto auxiliar para reflexão

A IDEOLOGIA ALEMÃ
(Introdução)
Karl Marx e Friedrich Engels
PREFÁCIO
Até agora, os homens formaram sempre idéias falsas sobre si
mesmos, sobre aquilo que são ou deveriam ser. Organizaram as suas
relações mútuas em função das representações de Deus, do homem
normal, etc., que aceitavam. Estes produtos do seu cérebro acabaram
por os dominar; apesar de criadores, inclinaram-se perante as suas
próprias criações. Libertemo-los portanto das quimeras, das idéias,
dos dogmas, dos seres imaginários cujo jugo os faz degenerar.
Revoltemo-nos contra o império dessas idéias. Ensinamos os homens
a substituir essas ilusões por pensamentos que correspondam à
essência do homem, afirma um; a ter perante elas uma atitude crítica,
afirma outro; a tirá-las da cabeça, diz um terceiro e a realidade
existente desaparecerá.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Humor




quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Reportagem




O jornalista André Siqueira, sub-editor de Economia da revista Carta Capital, decidiu fazer algumas contas e demonstrou objetivamente que o candidato à presidência da República do PSDB, José Serra, não tem como cumprir uma série de promessas que vem fazendo na campanha eleitoral. Em primeiro lugar, Serra teria que rasgar a cartilha de gestão pública de seu partido, que critica os gastos públicos do governo Lula. E nem assim o tucano conseguiria elevar o salário mínimo para 600 reais, instituir um 13° pagamento para o Bolsa Família ou reajustar em 10% as aposentadorias. “É de causar espanto a falta de olhar crítico da mídia para as promessas do candidato José Serra, impraticáveis diante dos paradigmas de gestão tucanos”, escreve Siqueira. Trata-se de um devaneio do candidato, acrescenta. Vamos aos números analisados por André Siqueira: “Consta no Orçamento de 2011 a proposta de elevar o salário mínimo para 538,14 reais. Serra propõe desembolsar 61,86 reais a mais por assalariado, para atingir os 600 reais. Apenas essa promessa de campanha custaria, portanto, 12,3 bilhões de reais. O montante é próximo ao orçamento total do programa Bolsa Família, atualmente em 13,7 bilhões de reais. Aliás, criar uma parcela a mais para o programa acrescentaria 1,14 bilhão de reais ao cálculo – em valores correntes. Finalmente, há o reajuste dos benefícios da Seguridade Social. Nesse caso, apelo ao cálculo do economista do Ipea, Marcelo Caetano, que avaliou em 6,2 bilhões de reais o esforço adicional exigido pelo presente oferecido pelo tucano aos aposentados e pensionistas”. No total, assinala o jornalista da Carta Capital, as promessas de Serra custariam cerca de 19,6 bilhões de reais aos cofres públicos. André Siqueira consultou, então, o especialista em contas públicas, Amir Khair, ex-secretário de Finanças de São Paulo, para indagar sobre a viabilidade das promessas de Serra, que batem de frente, sempre é bom lembrar, com as críticas que o próprio candidato e seu partido fazem ao que consideram ser “excesso de gastos” do governo Lula. Em primeiro lugar, Khair lembra que o gasto federal corresponde a uma parcela de 43% dos desembolsos totais do setor público. O restante fica a cargo das prefeituras e estados. Em segundo, assinala, cerca de 80% do orçamento federal está legalmente engessado com salários e outras obrigações constitucionais. Considerando a pouca margem de manobra que resta ao Executivo, Khair imagina que um “choque de gestão”, - a receita preferida do PSDB – permitiria um corte de aproximadamente 30%. Seria um “sacrifício extraordinário”, diz o economista, e equivaleria a 2,58% do gasto público nacional, algo em torno de 9,9 bilhões de reais. Ou seja, mesmo se fizesse isso, Serra estaria conseguindo apenas a metade dos recursos necessários para cumprir suas promessas de aumentar o salário mínimo para 600 reais, de reajustar em 10% as aposentadorias e de conceder um 13° pagamento ao Bolsa Família. “E ele continua a criticar o endividamento público. Ao mesmo tempo em que promete elevar gastos sociais, ampliar investimentos e cortar impostos. Como, José?”, indaga o jornalista.

Reportagem

artigo retirado do site

http://www.cartamaior.com.br/templates/index.cfm?alterarHomeAtual=1&home=S

Serra em intercurso com a extrema direita

Como um picollo Fausto, Serra emprestou sua candidatura à ressurgencia da extrema direita na vida política nacional. A desesperada tentativa de derrotar a esquerda da qual ele já participou um dia não observa mais qualquer concessão à ética e à própria biografia. Assiste-se a uma entrega constrangedora. “Obsceno” resumiu a professora Marilena Chauí, no ato dos intelectuais e artistas em apoio a Dilma Rousseff, realizado segunda-feira, no Rio. A filósofa exibia uma propaganda do tucano, assinada por ele, ilustrada com a frase bíblica : "Jesus é a verdade e a vida". "Isso é religiosamente obsceno. É politicamente obsceno... É uma violência contra o ecumenismo religioso”, fuzilou a professora Chauí.
Nada demais para Serra, cuja hipocrisia se despiu na figura da esposa, Monica, que saiu do anonimato para a história como dublê de Regina Duarte nessas eleições. Psicólogoa e bailarina, em 1992 ela narrou às alunas um aborto feito em condições difíceis, mas não hesitou em sair às ruas dos subúrbios do Rio para acusar a candidata petista de ser a favor ‘de matar as criancinhas’. É esse o diapasão do tudo ou nada a que se entregou a sobra daquilo que foi um dia o projeto social-democrata do tucanato paulista.
A poucos menos de duas semanas das eleições, Serra terceirizou sua candidatura a forças e apelos obscurantistas em busca do voto do medo e do reacionarismo quase caricatural. Não há constrangimento no seu olhar. Ao contrário, quando ganha pontos na pesquisa, Serra demonstra a felicidade dos traidores, aquele lampejo de ‘deu certo’, logo, a vitória legitima qualquer coisa. É assim que tem se esponjado, entre engolir hóstias sem fé e chafurdar no lamaçal de água benta falsificada atulhado de detritos históricos que ameaçam ressuscitar o que há de pior na política nacional. Os ataques ao Programa Nacional de Direitos Humanos que envergonham até tucanos históricos, como Paulo Sergio Pinheiro, consolidam seu nome como um assustador cavalo-de-tróia da brasa-dormida do fascismo herdeiro de Plínio Salgado. O pior é que não há aqui qualquer força de expressão. Kelmon Luiz de Souza, responsável pela encomenda de 20 milhões de panfletos que simulam chancela da CNBB para ataques tucanos a Dilma, tem um cartão de visitas que não deixa margem a enganos. Assessor de Dom Bergonzini, bispo de Guarulhos, da ala direita do clero que seria o ‘mandante-laranja’ da encomenda, Kelomon tem outras ocupações não menos esclarecedoras. Ele divide o seu tempo entre os afazeres na sacristia de Guarulhos e a presidência da Associação Theothokos, uma ONG ligada a setores de ultradireita da Igreja Ortodoxa, cujo portal está registrado em nome da Casa de ‘Plínio Salgado, o aspirante a Hitler nativo dos anos 30/40.
Não para aí o intercurso da candidatura Serra com a regressividade moral e política. A gota d'água que multiplica reações –atos e manifestos-- de repulsa e espanto na academia em relação a sua candidatura foi a revelação recente de que uma dos provedores de ‘conteúdo’ dessa engrenagem que expele calúnias e extremismo fascista pela Internet , sediado em Brasília, chama-se Nei Mohn, nada menos que o presidente da "Juventude Nazista" em 1968. [leia em Carta Maior: "Dilma é alvo de grupos de extrema-direita e neonazistas"]. Informante do Cenimar, Mohn tem uma ficha corrida que detalha a especialidade dos seus serviços, entre eles atentados a bomba, na década de 80, mas, sobretudo, a falsificação de informações para denegrir a reputação de religiosos que denunciavam torturas, assassinatos e desaparecimentos. Trata-se de um talento familiar que se transfere de pai para filho. Seu filho, o advogado Bruno Degrazia Möhn trabalha para um grande escritório de advocacia de Brasília contratado para prestar serviços a Daniel Dantas, cuja irmã foi sócia da filha de Serra em polemica empresa de serviços registrada em paraísos fiscais. São coincidências demais para serem apenas coincidências. Tudo indica que não há improviso nesse processo. Assim como a gráfica que rodou panfletos contra Dilma pertence à irmã de um dos coordenadores da campanha de Serra, o mesmo provedor que hospeda o site do candidato [Newssender/Locaweb Serviços de Internet S/A] está integrado à rede de boatos contra Dilma, coordenada pelo assustador braço do ex-agente da Cenimar.

Evidencias desse tipo, de que uma coalizão de direita e extrema-direita tomou de assalto a candidatura demotucana com o beneplácito de seus principais personagens, incluindo-se o candidato e a esposa, embaraçam amigos e conhecidos e explicam o mal-estar que tende a se espalhar na academia. É esse mal-estar que tem gerado uma benigna resposta na forma de manifestos e atos de apoio a Dilma que se multiplicaram nos últimos dias. A letargia que predominou nos meios intelectuais durante boa parte do processo eleitoral parece ter se esgotado diante dos riscos À democracia e à dignidade do país embutidos no vale-tudo da coalizão demotucana. É esse movimento que tende a tomar conta do espaço político até 31 de outubro, consolidando uma linha divisória expressa no título do mais recente manifesto lançado na academia. Nascido na Unicamp –onde Serra deu aula— o texto abre com um resumo do estado de espírito que se generaliza nos meios intelectuais de todo o país: “Porque Dilma sim; porque não Serra”[leia neste blogue esse e outros manifestos e atos de apoio a Dilma].

Postado por Saul Leblon às 11:37

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Reportagem

Todos sabem, tanto através desse blog quanto por uma conversa pessoal comigo, que sou ateu assumido e contra o voto obrigatório, e por isso (entre outras coisas, como a exigência de uma reforma política imediata) não voto. Mas o que vem acontecendo no país nesse ano de eleição me deixou incomodado, principalmente porque pelo artigo 19 da constituição somos um Estado LAICO. Por isso, abro espaço nesse blog para um teólogo do qual já li bastante livros, mas que não concordo com boa parte de suas ideias, embora aqui haja uma que compartilho. Trata-se de Leonardo Boff e de seu texto publicado no site http://correiodobrasil.com.br/a-midia-comercial-em-guerra-contra-lula-e-dilma/182757/boff/. Não sou mais petista como outrora, mas certamente não sou tucano colonial, e o que for preciso pra convencer outras pessoas a não votarem nesses dominadores oportunistas eu farei. Segue abaixo a reportagem:

"Sou profundamente pela liberdade de expressão em nome da qual fui punido com o “silêncio obsequioso” pelas autoridades do Vaticano. Sob risco de ser preso e torturado, ajudei a editora Vozes a publicar corajosamente o Brasil Nunca Mais, onde se denunciavam as torturas, usando exclusivamente fontes militares, o que acelerou a queda do regime autoritário.

Esta história de vida me avalisa fazer as críticas que ora faço ao atual enfrentamento entre o Presidente Lula e a midia comercial que reclama ser tolhida em sua liberdade. O que está ocorrendo já não é um enfrentamento de ideias e de interpretações e o uso legítimo da liberdade da imprensa. Está havendo um abuso da liberdade de imprensa que, na previsão de uma derrota eleitoral, decidiu mover uma guerra acirrada contra o presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff. Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta.

Precisamos dar o nome a esta mídia comercial. São famílias que, quando veem seus interessescomerciais e ideológicos contrariados, se comportam como “famiglia” mafiosa. São donos privados que pretendem falar para todo Brasil e manter sob tutela a assim chamada opinião pública. São os donos de O Estado de São Paulo, de A Folha de São Paulo, de O Globo, da revista Veja, na qual se instalou a razão cínica e o que há de mais falso e chulo da imprensa brasileira. Estes estão a serviço de um bloco histórico assentado sobre o capital que sempre explorou o povo e que não aceita um presidente que vem desse povo. Mais que informar e fornecer material para a discusão pública, pois essa é a missão da imprensa, esta mídia empresarial se comporta como um feroz partido de oposição.

Na sua fúria, quais desesperados e inapelavelmente derrotados, seus donos, editorialistas e analistas não têm o mínimo respeito devido a mais alta autoridade do país, ao presidente Lula. Nele veem apenas um peão a ser tratado com o chicote da palavra que humilha.

Mas há um fato que eles não conseguem digerir em seu estômago elitista. Custa-lhes aceitar que um operário, nordestino, sobrevivente da grande tribulação dos filhos da pobreza, chegasse a ser presidente. Este lugar, a Presidência, assim pensam, cabe a eles, os ilustrados, os articulados com o mundo, embora não consigam se livrar do complexo de vira-latas, pois se sentem meramente menores e associados ao grande jogo mundial. Para eles, o lugar do peão é na fábrica produzindo.

Como o mostrou o grande historiador José Honório Rodrigues (Conciliação e Reforma), “a maioria dominante, conservadora ou liberal, foi sempre alienada, antiprogresssita, antinacional e não contemporânea. A liderança nunca se reconciliou com o povo. Nunca viu nele uma criatura de Deus, nunca o reconheceu, pois gostaria que ele fosse o que não é. Nunca viu suas virtudes, nem admirou seus serviços ao país, chamou-o de tudo – Jeca Tatu -; negou seus direitos; arrasou sua vida e logo que o viu crescer ela lhe negou, pouco a pouco, sua aprovação; conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que contiua achando que lhe pertence (p.16)”.

Pois esse é o sentido da guerra que movem contra Lula. É uma guerra contra os pobres que estão se libertando. Eles não temem o pobre submisso. Eles têm pavor do pobre que pensa, que fala, que progride e que faz uma trajetória ascedente como Lula. Trata-se, como se depreende, de uma questão de classe. Os de baixo devem ficar em baixo. Ocorre que alguém de baixo chegou lá em cima. Tornou-se o presidente de todos os brasileiros. Isso para eles é simplesmente intolerável.

Os donos e seus aliados ideológicos perderam o pulso da história. Não se deram conta de que o Brasil mudou. Surgiram redes de movimentos sociais organizados, de onde vem Lula, e tantas outras lideranças. Não há mais lugar para coroneis e para “fazedores de cabeça” do povo. Quando Lula afirmou que “a opinião pública somos nós”, frase tão distorcida por essa midia raivosa, quis enfatizar que o povo organizado e consciente arrebatou a pretensão da midia comercial de ser a formadora e a porta-voz exclusiva da opinião pública. Ela tem que renunciar à ditadura da palabra escrita, falada e televisionada e disputar com outras fontes de informação e de opinião.

O povo cansado de ser governado pelas classes dominantes resolveu votar em si mesmo. Votou em Lula como o seu representante. Uma vez no Governo, operou uma revolução conceptual, inaceitável para elas. O Estado não se fez inimigo do povo, mas o indutor de mudanças profundas que beneficiaram mais de 30 milhões de brasileiros. De miseráveis se fizeram pobres laboriosos, de pobres laboriosos se fizeram classe média baixa e de classe média baixa de fizeram classe média. Começaram a comer, a ter luz em casa, a poder mandar seus filhos para a escola, a ganhar mais salário, em fim, a melhorar de vida.

Outro conceito innovador foi o desenvolvimento com inclusão soicial e distribuição de renda. Antes havia apenas desenvolvimento/crescimento que beneficiava aos já beneficiados à custa das massas destituidas e com salários de fome. Agora ocorreu visível mobilização de classes, gerando satisfação das grandes maiorias e a esperança que tudo ainda pode ficar melhor. Concedemos que no Governo atual há um déficit de consciência e de práticas ecológicas. Mas, importa reconhecer que Lula foi fiel à sua promessa de fazer amplas políticas públicas na direção dos mais marginalizados.

O que a grande maioria almeja é manter a continuidade deste processo de melhora e de mudança. Ora, esta continuidade é perigosa para a mídia comercial que assiste, assustada, ao fortalecimento da soberania popular que se torna crítica, não mais manipulável e com vontade de ser ator dessa nova história democrática do Brasil. Vai ser uma democracia cada vez mais participativa e não apenas delegatícia. Esta abria amplo espaço à corrupção das elites e dava preponderância aos interesses das classes opulentas e ao seu braço ideológico que é a mídia comercial. A democracia participativa escuta os movimentos sociais, faz do Movimento dos Sem Terra (MST), odiado especialmente pelaVEJA, que faz questão de não ver; protagonista de mudanças sociais não somente com referência à terra, mas também ao modelo econômico e às formas cooperativas de produção.

O que está em jogo neste enfrentamento entre a midia comercial e Lula/Dilma é a questão: que Brasil queremos? Aquele injusto, neocoloncial, neoglobalizado e, no fundo, retrógrado e velhista; ou o Brasil novo com sujeitos históricos novos, antes sempre mantidos à margem e agora despontando com energias novas para construir um Brasil que ainda nunca tínhamos visto antes?

Esse Brasil é combatido na pessoa do Presidente Lula e da candidata Dilma. Mas estes representam o que deve ser. E o que deve ser tem força. Irão triunfar a despeito das más vontades deste setor endurecido da midia comercial e empresarial. A vitória de Dilma dará solidez a este caminho novo ansiado e construido com suor e sangue por tantas gerações de brasileiros."

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

terça-feira, 12 de outubro de 2010