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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Reportagem

Fonte: Carta Capital

Pluralismo às avessas

Vem de Brasília, como não poderia deixar de ser, a novidade no festival de excentricidades em que se constitui a política nacional. Uma nova sigla deverá ser acrescentada à encorpada sopa de letras que define nosso sistema partidário. Depois do PSD do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, provavelmente passaremos a contar, já nas eleições municipais de 2012, com o PPL (Partido Pátria Livre). Basta que os doutos senhores da corte máxima da Justiça Eleitoral brasileira, o TSE, concedam registro definitivo à legenda.

Não se trata de desprezo pela democracia, pelo pluralismo de idéias e pelo sagrado direito fundamental dos cidadãos – oportunamente garantido pela Constituição Federal de 1988, a primeira pós- ditadura militar – de se manifestar livremente e de participar da arena partidária nacional por meio de legendas que representem suas convicções político-ideológicas.

Muito pelo contrário. O que motiva este artigo e inspira a análise que fazemos sobre as novas legendas é o mais puro espírito democrático. Mas de que democracia falamos? A preconizada pelo filósofo e historiador italiano Norberto Bobbio, falecido em 2004. Para Bobbio, a democracia se fundamenta em três princípios: a ética, a honestidade e o respeito aos interesses da maioria, acima dos individuais.

Com a palavra, o autor: “Não há boa democracia sem costume democrático, e costume democrático significa ser honesto no exercício dos próprios negócios, leal nas trocas (…), respeitar a si e aos outros, estar consciente das obrigações, não somente jurídicas, mas também morais, que cada um de nós tem para com o próximo (…); enfim, saber distinguir e não confundir interesses privados e públicos”.

Inspirado neste conceito de democracia, este artigo se propõe a levantar uma dúvida crucial: a criação destes dois novos partidos representa, efetivamente, os interesses do conjunto da sociedade brasileira? Mais: no extenso leque de 27 siglas existentes no cenário partidário nacional, não há absolutamente nenhuma que traduza as aspirações dos criadores destas siglas?

Ruim com os partidos, pior sem eles, reza a cartilha da democracia política verde e amarela, que se assenta no pluralismo. Mas o fato é que, pluralismo à parte, quem paga a conta da criação de novos partidos somos nós, os contribuintes. Afinal, diferentes dos contribuintes, as legendas usufruem o privilégio de não pagar impostos, prerrogativa garantida pelo artigo 150 da Constituição Federal de 1988. Veiculam propaganda no horário eleitoral gratuito à custa da isenção de impostos das emissoras de rádio e TV.

E, sim, recebem dinheiro público. Está lá no site do TSE, para quem quiser conferir: de janeiro a julho de 2011, o Orçamento da União garantiu ao Fundo Especial de Assistência Financeira aos Partidos Políticos cerca de 302 milhões de reais – 265,35 milhões de reais referentes aos duodécimos (o valor garantido a cada partido proporcionalmente à sua representação no Congresso Nacional) e 36,13 milhões de reais referentes às multas pagas pelos eleitores e candidatos condenados judicialmente).

Quem recebeu a maior bolada foi o PT (33,11 milhões reais), mas mesmo o quase desconhecido PCO (Partido da Causa Operária), o lanterna da lista, ganhou nada desprezíveis 303 mil reais. Com a ajuda do colega Silênio Vignoli, lembramos: dos 27 partidos brasileiros, apenas 22 têm representação na Câmara Federal e oito (1/3, portanto) têm apenas de um a quatro deputados.

Disto recorre o óbvio: o fato de se criar uma nova estrutura partidária não é garantia suficiente para a existência da representatividade. Esta só se dá de fato, como nos ensina Bobbio no texto que citamos, quando os interesses coletivos superam os individuais e quanto a sigla em questão tem efetiva base na maioria – de preferência, popular.

A diversidade de idéias políticas não é sinônimo de ética e nem de inteligência. Da forma como o sistema partidário tem sido conduzido, o que temos é um pluralismo às avessas, no qual a defesa das convicções de um grupo – muitas vezes sem nenhuma base no movimento social – é custeada por todos. Ou seja: as convicções são pessoais, mas quem paga a conta pela sua defesa é o coletivo. Há algo de errado no sistema partidário brasileiro. E a culpa não está nos milhões de eleitores que exercem seu sagrado direito de voto, a cada dois anos.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Reportagem

Abro espaço para mais um artigo retirado da revista "Carta capital", referente aos últimos acontecimentos relacionados aos homossexuais. O texto de Jean é claro, curto e objetivo (apesar de manter a polidez com relação à opção religiosa). É lamentável que em plena era da TV de Amoled tenhamos que aturar uma senhora como a do vídeo abaixo relacionado tentando impor sua moral mais do que arcaica e e desumana. O mal causado pelo fundamentalismo cristão e de outras denominações religiosas já foi anotado por inúmeras vezes no decorrer da história, cabe às gerações esclarecidas evitar que tais atrocidades se perpetuem.

ps: observem a qualidade do discurso da deputada Mirian Rios. É de uma ausência de intelecto (burrice) sem tamanho, cheio de falsas analogias e falácias absurdas.




Fé cega, faca amolada

O episódio envolvendo o projeto Escola Sem Homofobia do MEC e a marcha cristã contra o PLC 122 (que revê punições para quem viola a dignidade e os direitos de minorias vulneráveis, como idosos, pessoas com deficiências e LGBTs) me suscitaram uma questão que está ligada ao crescimento do fundamentalismo religioso e aos esforços deste para converter seus dogmas em leis para todos. A questão nos leva a crer que o Estado laico e de direito, as liberdades civis e o humanismo estão ameaçados pelo fundamentalismo cristão (católico e, sobretudo, evangélico neopentecostal).

Jean Wyllys: “O Estado é laico. É por ele que os congressistas devem lutar”.

Em primeiro lugar, quero ressaltar que não estou me referindo à totalidade dos crentes cristãos, mas apenas aos fundamentalistas. Conheço muitos crentes católicos e evangélicos que comungam do respeito (e até se sacrificam) pelas liberdades, pela justiça e pela humanidade. Eu mesmo fui educado no cristianismo católico e herdei, do catecismo e das comunidades eclesiais de base, o humanismo e o amor pelo outro que hoje defendo, embora não seja mais católico. Há muitos outros crentes que defendem o mesmo. Mas não é o caso dos fundamentalistas.

Cristãos fundamentalistas são aqueles que crêem na Bíblia sem interpretá-la. Acreditam nos fundamentos de sua religião como verdades absolutas e inquestionáveis – e a Bíblia, como um texto literário escrito em contexto histórico e social bastante diferente do nosso, na maioria de suas passagens não deve ser tomada ao pé da letra. O fundamentalismo religioso tem, então, total identidade com o fanatismo e com o obscurantismo.

As idéias de cristãos fundamentalistas acerca da homossexualidade – de que esta é uma doença ou um “pecado mortal” e que os homossexuais vivem em pecado e que, portanto, “não herdarão o reino dos céus” – são obscurantistas e fanáticas e abrem mão da razão. Esses “cristãos” – muitos deles ocupando espaços na tevê, nas Assembléias Legislativas, Câmaras de Vereadores e no Congresso Nacional – querem que mulheres e homens vivam segundo leis e valores descritos em um livro (a Bíblia) escrito há dezenas de séculos antes de nós. Querem que joguemos fora todas as descobertas científicas e argumentos filosóficos acumulados nos últimos dois mil anos de discurso humano para vivermos conforme vivem os personagens da Bíblia. Não! Mulheres e homens precisam desenvolver suas virtudes e possibilidades humanas, precisam ser humanistas e lutar pelas liberdades civis.

Não se calar diante da tagarelice desses parlamentares e de outros fundamentalistas é, portanto, lutar pela respeito mútuo entre os diferentes, pela solidariedade entre os seres humanos, pela liberdade de crença e de descrença (sim, ateus e agnósticos têm o direito de não crer e nem por isso devem ser considerados pessoas sem ética) e pela laicidade. Em seu Artigo 19, a Constituição afirma que o estado brasileiro é laico e que, como tal, não deve nem pode estabelecer preferências entre as religiões. O texto constitucional dá à pessoa humana o direito de acreditar ou não em um ser divino, mas, afirma que o estado não tem sentimento religioso.

A história nos mostra que o fundamentalismo em qualquer religião só leva as pessoas ao autoritarismo, à escravidão e à violência. Fundamentalistas não têm compromisso com a ética que assegura a vida nem com o bem-estar de todos. Essa gente quer estabelecer a paz dos cemitérios. Como diz a letra da canção, “fé cega, faca amolada”.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Reportagem

Trago hoje uma entrevista com a antropóloga e documentarista Débora Diniz, na qual ela detalha um pouco algumas questões que já haviam sido levantadas há quase um ano quando do lançamento dos resultados de uma pesquisa da UnB.

ISTOÉ – O ensino religioso nas escolas públicas, num Estado laico como o Brasil, é legítimo?

DEBORA DINIZ – Sim e não. Sim porque está previsto pela Constituição. E não quando se trata da coerência com o pacto político. Chamo de coerência a harmonia com os outros princípios constitucionais: da liberdade e do pluralismo religiosos e da separação entre o Estado e as igrejas. Falsamente, se pressupõe que religião seria um conteúdo necessário para a formação da cidadania.

ISTOÉ – O pluralismo religioso é respeitado nas escolas públicas?

DEBORA DINIZ – Não. A Lei de Diretrizes e Bases delega aos Estados o poder sobre a definição dos conteúdos e quem são os professores habilitados. Isso não acontece com nenhuma outra matriz disciplinar no País. A LDB diz que o ensino religioso não pode ser proselitista. Apesar disso, legislações de vários Estados – como a do Rio de Janeiro – afirmam que tem de ser confessional. Determinam que seja católico, evangélico.

ISTOÉ – As escolas viraram igrejas?

DEBORA DINIZ – As aulas de ensino religioso, obrigatórias nas escolas públicas, se transformaram num espaço permeável ao proselitismo. Não é possível a oferta do ensino religioso confessional sem ser proselitista. Se formos para o sentido dicionarizado da palavra proselitismo, é professar um ato de fé. É a catequização. O proselitismo é um direito das reli­giões. Mas isso pode ocorrer na escola pública? A LDB diz que não.

ISTOÉ – É possível haver ensino religioso sem ser proselitista?

DEBORA DINIZ – É. A resposta de São Paulo foi defini-lo como a história, a filosofia e a sociologia das religiões.

ISTOÉ – São Paulo seria o melhor exemplo de ensino religioso no País?

DEBORA DINIZ – No que diz respeito ao decreto estadual, segundo o qual o ensino não deve ser confessional, sim. Mas se é o melhor exemplo na sala de aula, não temos pesquisas no Brasil para afirmar isso. A LDB diz que a matrícula é facultativa. Então, também devemos perguntar: o que a criança faz quando não está na aula de religião?

ISTOÉ – O ensino religioso, da forma como está configurado, é uma ameaça à liberdade religiosa?

DEBORA DINIZ – É. Quanto mais confessional for a regulamentação dos Estados, quanto mais os concursos públicos forem como o do Rio – em que o indivíduo tem de apresentar um atestado da comunidade religiosa a que pertence e, caso mude de religião, perde o concurso –, maior é a ameaça. A liberdade religiosa está ameaçada no País e a justiça religiosa também.

ISTOÉ – Há uma tentativa de privilegiar uma ou outra religião?

DEBORA DINIZ – Quase todos os Estados se apropriam do que aconteceu no Rio, nominando as religiões dos professores. No Ceará, por exemplo, o professor tem de ter formação em escolas teológicas. Mas religiões afro-brasileiras não têm a composição de uma teologia formal. Essa exigência privilegia os católicos e os protestantes.

ISTOÉ – Por que o MEC não define o conteúdo do ensino religioso?

DEBORA DINIZ – Há uma falsa compreensão de que o fenômeno religioso é um saber para iniciados, e não para especialistas laicos. Também há um equívoco sobre o que define o pacto político num Estado laico. O fenômeno religioso não é anterior ao fato político. Religião não pode ter um status que não se subordine ao acordo constitucional e legislativo. Isso é verdade em algumas coisas, tanto que o discurso do ódio não é autorizado. O debate sobre a criminalização da homofobia causa tanto incômodo às comunidades religiosas porque resultará em restrição de liberdade de expressão. Não se poderá dizer que ser gay é grave perversão, como algumas fazem atualmente.

ISTOÉ – Os livros didáticos dizem…

DEBORA DINIZ – Dizem porque há essa lacuna de regulação e de fiscalização. Há uma subordinação do nosso pacto político ao fato religioso. O que é um equívoco. Também há uma falsa presunção de que o saber religioso não possa ser revisado. O MEC tem um painel em que todas as controvérsias científicas são avaliadas por uma equipe que diz o que pode e o que não pode entrar nos livros didáticos. A despeito de pequenas comunidades no campo da biologia dizerem que criacionismo é uma teoria legítima sobre a origem do mundo, o filtro do MEC diz que criacionismo não é ciência. Por que, então, o MEC não define o que pode entrar nos livros de ensino religioso e os parâmetros curriculares?

ISTOÉ – O que os livros didáticos de religião pregam?

DEBORA DINIZ – Avaliamos 25 livros didáticos de editoras religiosas e das que têm os maiores números de obras aprovadas pelo MEC para outras disciplinas. Expressões e valores cristãos estão presentes em 65% deles. Expressões da diversidade cultural e religiosa brasileira, como religiões indígenas ou afro-brasileiras, não alcançam 5%. Muitas tratam questões como a homofobia e a discriminação contra crianças deficientes de uma maneira que, se fossem submetidas ao crivo do MEC, seriam reprovadas. A retórica sobre os deficientes é a pior possível. A representação simbólica é de quem é curado, alguém que é objeto da piedade, que deixa de ser leproso e de ser cego. É a do cadeirante dizendo obrigado, num lugar de subalternidade.

ISTOÉ – A submissão ao sagrado é estimulada?

DEBORA DINIZ – É uma submissão ao sagrado, à confessionalidade. Mas a confessionalidade não se confunde com o sagrado. O sentido do sagrado pode ser explicado. No caso do “Alcorão”, é possível explicar que a escrita tem relação com a história do islamismo. Não precisamos de livros que violem o sagrado, que digam que Maria não era virgem. Mas eles não precisam se submeter à confessionalidade, dizer que há só uma verdade.

ISTOÉ – Há um estímulo ao preconceito e à intolerância nos livros?

DEBORA DINIZ – Sem dúvida. Há a expressão da intolerância à diversidade – das pessoas com deficiência, da diversidade sexual e religiosa, das minorias étnicas. Há, também, uma certa ironia com as religiões neopentecostais.

ISTOÉ – A ideia da supremacia moral dos que têm religião é defendida?

DEBORA DINIZ – É. Há equívocos históricos e filosóficos, como a associação de ­Nie­tz­s­che ao nazismo. As pessoas sem Deus são representadas como uma ameaça à própria ideia do humanismo. É muito grave a representação dos ateus. Isso pode gerar desconforto entre as crianças cujas famílias não professem nenhuma religião. Já que, nos livros, elas estão representadas como aquelas que mataram Deus e associadas simbolicamente a coisas terríveis, como o nazismo.

ISTOÉ – As aulas facultativas podem se tornar uma armadilha?

DEBORA DINIZ – Sem dúvida. A criança terá de explicar suas crenças, o que deveria ser matéria de ética privada. Pior: ao sair da aula com um livro como esse, as crianças talvez tenham de explicar por que não têm Deus.

ISTOÉ – Não há reflexões históricas sobre o significado das religiões?

DEBORA DINIZ – Nenhuma. Há uma enorme dificuldade de nominar as comunidades indígenas como possível religião. Elas possuem tradições e práticas religiosas ou magia. No caso das afro-brasileiras, também se fala em tradição.

ISTOÉ – O que levou o Estado a proteger o ensino religioso na Constituição?

DEBORA DINIZ – Foi uma concessão a comunidades religiosas numa disputa sobre o lugar de Deus e da religiosidade na Constituição. A religião foi mantida no que caracterizaria a vida boa e a formação da cidadania. Isso é um equívoco. A religião pode ser protegida pelo Estado, mas não no espaço de promoção da cidadania que é a escola.

ISTOÉ – O ensino religioso está ganhando ou perdendo espaço no mundo?

DEBORA DINIZ – Essa é uma controvérsia permanente. Nos Estados Unidos, um país bastante religioso, não está na escola pública. Na França, o país mais laico do mundo, também não. Exceto na região da Alsácia-Mosele. Na Bélgica e no Reino Unido está. Esses países hoje enfrentam com muita delicadeza a islamização de suas sociedades. Na Alemanha, grupos islâmicos já começaram a exigir o ensino de sua religião nas escolas públicas.

ISTOÉ – Mas na França também há o outro lado, de proibirem vestimentas…

DEBORA DINIZ – Esse é o paradoxo que a França enfrenta neste momento, sobre como respeitar o modelo da neutralidade. A lei do país proíbe símbolos religiosos ostensivos nas escolas públicas – cruz grande, solidéu, véu. O que o outro lado vai dizer? Que isso viola um princípio fundamental, que é a expressão das crenças individuais estar no próprio corpo.

ISTOÉ – Quais são os desafios do ensino religioso no Brasil?

DEBORA DINIZ – São gigantescos e podem ser divididos em três esferas. Uma é a esfera legal. O ensino religioso está sob contestação nos foros formais do Estado: no Supremo, no MEC e no Ministério Público Federal. Além de a lei do Rio de Janeiro estar sendo contestada no Supremo, há uma ação da Procuradoria-Geral da República contra a concordata Brasil-Vaticano, assinada pelo presidente Lula em 2008.

ISTOÉ – E do que trata esta ação?

DEBORA DINIZ – Um artigo da concordata prevê que o ensino religioso na escola pública seja, necessariamente, católico e confessional. Isso é inconstitucional. Estamos falando da estrutura da democracia. Segundo o ministro Celso de Mello, em toda a história do Supremo, só tínhamos tido uma ação que tocava na questão da laicidade do Estado. Isso foi nos anos 40. Agora, temos pelo menos duas. A segunda esfera é como o ensino religioso pode ou não pode ser implementado. O MEC precisa definir quem serão os professores, como serão habilitados e quais conteúdos serão ensinados. A terceira esfera é a sala de aula, a garantia de que vai ser um ensino facultativo e de que o proselitismo religioso será proibido.

* Débora Diniz é antropóloga e documentarista. Aos 41 anos, ela já recebeu 78 prêmios por sua atua­ção como pesquisadora e cineasta. Professora da Universidade de Brasília, Debora é autora de oito livros, sendo o último deles “Laicidade e En­sino Religioso no Brasil”.

Confiram também o site Buloevoador

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Reportagem

Autor: Carlos Orsi

Nos 14 anos em que trabalhei no Grupo Estado, muitas vezes me vi defendendo — em mesas de bar, festas de família, e até na área de cafezinho da redação — os editoriais do Estadão da acusação de que seriam ranhetões, “direitões”, excessivamente conservadores.

Claro, sempre houve um prisma conservador filtrando as análises publicadas na vetusta página 3, mas eu insistia em apontar que, em muitos casos, a essência do que se dizia ali era, se não correta, ao menos apoiada numa argumentação firme o bastante para não poder ser desprezada com um dar de ombros ou o bom e velho “se o Estadão defende X, então X deve ser uma merda”.

Mas eis que, neste sábado, eu abro o jornal e vejo um texto que reduz toda a minha linha argumentativa a pó de traque. Trata-se da análise feita pelo jornal da tragédia do Realengo. O editorial Que nos sirva de alerta não só se abstém de comentar o caráter de fanatismo religioso do crime — mais sobre isso adiante — como ainda joga com o clichê da “falência dos valores humanos em seu embate permenente com o pragmatismo da sociedade de consumo” e, mirabile dictu!, ainda encontra razões para atacar um criador de videogames dos Estados Unidos.

A hipótese de uma “falência dos valores humanos” diante do “pragmatismo” pressupõe uma época, em tempos idos, onde os valores humanos eram uma sólida corporação — mas que, no tempo que separa essa época áurea do presente, foi sendo acossada pelas pressões do “pragmatismo da sociedade de consumo” contemporânea, entrou em concordata e agora caminha para a liquidação extrajudicial.

Fico imaginando, quando foi que os valores humanos se sobrepuseram ao pragmatismo? Em tempos homéricos, quando Agamenon sacrificou a própria filha para garantir o sucesso da guerra contra Troia? Em tempos bíblicos, quando Abraão não hesitou em prostituir a própria esposa para atrair a boa vontade do faraó do Egito? Talvez na Atenas dos filósofos, sustentada por trabalho escravo? Ou na Roma dos jogos de gladiadores?

Talvez o editorialista estivesse se referindo à Idade Média? As Cruzadas talvez tenham sido impulsionadas mais por valores do que por considerações pragmáticas (o que nos deveria fazer parar para pensar se ter “valores” é uma boa ideia, afinal). Mas então, o que dizer da Quarta Cruzada, que desistiu de atacar os muçulmanos e optou pelo pragmatíssimo saque de Constantinopla?

Parafraseando Bertrand Russell, o que a história ensina é que, no geral, o ser humano não age de acordo com seus valores; em vez disso, ele escolhe os valores que melhor justificam o que já estava com vontade de fazer. Esse pragmatismo, tão cínico quanto, muitas vezes, inconsciente, não foi inventado pela sociedade de consumo ou pela globalização. Está conosco desde que descemos das árvores.

O que me traz ao segundo ponto do editorial, a condenação do designer de videogames que criou um jogo sobre massacres escolares — um jogo que o assassino de Realengo provavelmente nunca viu — e a olímpica omissão da clara inspiração bíblica do crime.

Os “valores” que o assassino escolheu para justificar o que havia decidido fazer não são os de um adolescente tarado por first-person-shooters, mas os do Levítico, um dos livros mais psicopáticos da Bíblia, todo obcecado com questões de pureza e de sacrifícios de sangue. Por exemplo, compare este trecho do livro supostamente sagrado:

19 A mulher que tiver o corrimento menstrual ficará durante sete dias na impureza das regras. Quem a tocar ficará impuro até à tarde. 20 O lugar em que ela deitar ou sentar durante as regras ficará impuro. 21 Quem tocar o leito dela deverá lavar as vestes, tomar banho e ficará impuro até à tarde. 22 Quem tocar um móvel no qual ela esteve sentada deverá lavar as vestes, tomar banho e ficará impuro até à tarde. 23 Se o objeto tocado estiver sobre o leito ou sobre o assento em que esteve sentada, ficará impuro até à tarde. 24 Se um homem dormir com ela, ficará contaminado com a impureza e estará impuro durante sete dias, ficando impuro também o leito em que dormir.

Com este trecho da carta-testamento do assassino:

Primeiramente deverão saber que os impuros não poderão me tocar sem usar luvas, somente os castos ou os que perderam suas castidades após o casamento e não se envolveram em adultério poderão me tocar sem usar luvas, ou seja, nenhum fornicador ou adúltero poderá ter contato direto comigo, nem nada que seja impuro poderá tocar em meu sangue.

A biomédica e escritora Cristina Lasaitis sugere, em seu blog, que o assassino sofria de uma doença mental e que o discurso religioso foi apenas o modo que ele encontrou para dar forma e expressão a seus conflitos íntimos.

Se tivesse outro tipo de formação e outras referências culturais, talvez o assassino escrevesse uma carta com alusões a O Senhor dos Anéis, Guerra nas Estrelas ou, sim, até a videogames (e fico imaginando a onda de caça às bruxas que a imprensa e as autoridades desencadeariam, fosse esse o caso: basta lembrar o circo armado há alguns anos contra os livros de RPG).

Mas como a vestimenta da motivação foi religiosa, o editorialista prefere passar a borracha e culpar a decadência do ocidente e um remoto criador de videogames.

Mas, sim, é bem provável que a religião não tenha tido nada a ver com o crime, da mesma forma que Tolkien, George Lucas — e o game designer — não teriam tido nada a ver, caso as referências da carta fossem outras.

Para encerrar, porém, deixo aqui um fato que você provavelmente não verá mencionado em momento algum da cobertura da tragédia de Realengo: os dois maiores massacres de civis, fora de contexto militar, da história recente foram cometidos por motivação religiosa: o 11 de setembro e o suicídio coletivo de Jonestown. Tire disso a conclusão que quiser.


Texto retirado do site: http://carlosorsi.blogspot.com/2011/04/de-tragedias-e-de-valores.html

domingo, 3 de abril de 2011

Reportagem

Veja a lista de 28 "fichas-sujas" que querem validar candidaturas no Supremo


Improbidade administrativa

Alfredo Pastori (PSL-MG), candidato a deputado federal

Antonio Dias (PDT-SP), candidato a deputado federal

Arnaldo Vianna (PDT-RJ), candidato a deputado federal

Beti Pavin (PMDB-PR), candidata a deputada estadual

Dr. Gilberto Marin (PMDB-PR), candidato a deputado estadual

João Caramez (PSDB-SP), candidato a deputado estadual

Neguinho Teixeira (PSDC-BA), candidato a deputado estadual

Netinho da Saúde (PCdoB-RO), candidato a deputado estadual

Raul Freixes (PTdoB-MS), candidato a deputado estadual

Tereza Jucá (PMDB-RR), candidata a deputada federal

Rejeição de contas

Adib Elias (PMDB-GO), candidato a senador

Bado Venâncio (PSL-PB), candidato a deputado estadual

Caio Riela (PTB-RS), candidato a deputado federal

Ciro Roza (DEM-SC), candidato a deputado estadual

Edson Dantas (PSB-BA), candidato a deputado federal

Gilson Gomes (PSDC-ES), candidato a deputado estadual

Itamar Rios (PTB-BA), candidato a deputado estadual

Júnior de Paulo (PRP-PE), candidato a deputado estadual

Melinho (PSDB-RS), candidato a deputado estadual

Paulo Pastori (PTC-SP), candidato a deputado estadual

Compra de votos

Dr. Dirceu (PSDB-GO), candidato a deputado estadual

Jacó Maciel (PDT-PB), candidato a deputado estadual

José Riva (PP-MT), candidato a deputado estadual

Leonice da Paz (PDT-SP), candidata a deputada estadual

Vitor Sapienza (PPS-SP), candidato a deputado estadual

Renúncia ao mandato

Luiz Sefer (PP-PA), candidato a deputado estadual

Gilmar Carvalho (PR-SE), candidato a deputado estadual

Abuso do poder econômico

Bernardete Ten Caten (PT-PA), candidata a deputada estadual


Reconhece alguém?

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Reportagem

Breve reflexão

Breve reflexão

Sobre história e cultura árabes e sobre violência e hipocrisia ocidentais. Por Mino Carta. Foto:Philippe Body/Hemis.FR/AFP

Sobre história e cultura árabes e sobre violência e hipocrisia ocidentais

E me vem à mente a Andaluzia, não aquela invadida pelos reis católicos e seus padres vingativos, precursores do nazismo com seus autos de fé, e sim aquela que foi árabe por 700 anos. Quem tiver a ventura de se encontrar com a Alhambra em Granada, ou a Grande Mesquita de Córdoba, ou o Alcazar em Sevilha, não escapará à constatação da grandeza de uma civilização capaz de produzir obras tão deslumbrantes. Comovedoras, poéticas.

Não é que faltem outras provas da extraordinária contribuição da cultura árabe ao progresso da humanidade, e em todos os quadrantes. Por um largo período, séculos e séculos, o pensamento árabe foi decisivo nas artes e nas ciências, da escrita à matemática, da arquitetura à astronomia. Mas eu retorno, neste instante, às cidades andaluzas, onde os templos dos conquistadores aceitavam ao seu redor as juderias, os bairros judeus. Bairros e não guetos.

A conveniência entre árabes e judeus era muito diferente daquela que hoje se verifica no Oriente Médio. Pacífica, então, baseada na colaboração e no intercâmbio, feliz, tudo indica, dentro das possibilidades humanas de viver a felicidade. Diga-se que, longe da Grande Mesquita e da juderia que a cerca, ou ao descer da altura risonha onde se planta a Alhambra, Córdoba e Granada apresentam, fisicamente, alguma semelhança com Sorocaba.

Lembranças suscitam ideias e estas nos permitem viajar no tempo e no espaço. Ocorre-me o devaneio de Lawrence da Arábia em contraste à prepotência e à ferocidade dos turcos otomanos, da Grã-Bretanha e da França, que se esmeraram no projeto de fracionar a terra árabe a seu talante e em exclusivo proveito dos seus interesses imperialistas. Atrocidades morais e materiais foram cometidas pelos donos do poder global às margens daquele imenso golfo do Mediterrâneo, e à constante agressão acabaram por unir-se os Estados Unidos, debaixo do olhar condescendente de todo o Ocidente.

Fala-se muito de Hitler, com excelentes motivos, mas ninguém se incomodou com a chacina de 1 milhão e 200 mil armênios perpetrada pelo Império Otomano, o genocídio do começo do século passado. Resta o fato de que o Estado de Israel nasceu de súbito na Palestina, cujos habitantes ficaram exilados em sua própria terra. Pretendeu-se remir o monstruoso pecado do Holocausto, mas também postar o sentinela da civilização ocidental no coração da área humilhada.

E mais ainda pelos senhores locais, que se prestaram ao jogo ocidental, como Mubarak, por exemplo. Com Kaddafi a política das potências do Oeste ficou entre o cinismo e a hipocrisia, à sombra de uma inextinguível tentativa de negociação de paz e bem do fornecimento ininterrupto do petróleo. Vale lembrar que logo depois do golpe de Kaddafi, a aeronáutica líbia foi equipada com os Mirage franceses, enquanto a Alemanha contribuía para a criação na Líbia de uma indústria química de peso e a Itália baixava a cabeça diante da expulsão de 15 mil italianos do território líbio. Quanto aos Estados Unidos, depois de várias tentativas de assassinar o ditador, em 1986 revogaram as sanções econômicas quando Kaddafi aposentou seus projetos nucleares.

Não se esqueça que em 2009 a Grã-Bretanha libertou e devolveu à Líbia o autor do atentado de 1988 no céu de Lockerbie e que a Itália de Berlusconi de alguns anos para cá trata o coronel como grande estadista, recebe-o com pompa, assina com ele acordos de interesse nacional, sem contar aqueles de interesse privado do premier, talvez tomado de inveja por causa do harém do ditador, sempre incluído no seu séquito onde quer que viaje.

Pode parecer estranho que um forte e sadio exemplo de rebelião parta de uma região tão ofendida neste nosso mundo cada vez mais parvo e desigual. Se penso, porém, nas tradições árabes, na cultura de uma civilização que já foi dominante, não me surpreendo. E recordo os monumentos da Andaluzia.

PS. Por intermédio do carteiro e senador Eduardo Matarazzo Suplicy recebemos, Wálter Fanganiello e o acima assinado, uma carta em inglês da senhora Fred Vargas, a repetir suas teses peculiares contra a extradição de Cesare Battisti. Nada de novo, daí a inutilidade de uma resposta, a não ser a seguinte, que adoto como padrão, conforme exemplo do chanceler Antonio Patriota: entre Brasil e Itália foi assinado um tratado de extradição há cerca de 13 anos, o qual, aprovado pelos dois parlamentos, ganhou força de lei. Donde, respeite-se a lei. Não respeitá-la significa rasgar o acordo. Fica a pergunta: se o Brasil acredita em Fred Vargas e desacredita da Justiça do Estado Democrático de Direito italiano, por quais singulares cargas d’água assinou o tratado?