quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Ser otimista é saudável?


“Pense positivo”, “vai dar tudo certo, você vai ver”, “isso não vai acontecer com a gente, a probablidade é muito pequena”. Estes exemplos são familiares para você? Já ouviu isso de alguém hoje (ou ontem)? É cotidiano observar a capacidade que muitos de nós possuem de ser extremamente otimista, mesmo quando existem evidências claras de que deveriamos estar mais preocupados com o que está por vir.

Seja em relação ao contágio de doenças, ao furto de bens ou à acidentes graves, o ser humano parece tender a ver tais riscos como distantes de si e improváveis. Ser otimista já foi relacionado em alguns estudos com uma série de efeitos psicológicos benéficos, como menor ansiedade e melhor bem-estar. Este excesso de confiança, todavia, pode nos tornar ainda mais vulneráveis do que já somos, exatamente por pensarmos que não corremos certos riscos e não tomarmos ações necessárias de precaução.

O otimismo pode ser entendido tanto como uma superestimação de eventos futuros positivos quanto uma subestimação de eventos negativos futuros [1]. O que alguns estudos recentes tem indicado é que nós somos propensos a apresentar um otimismo exagerado, “irrealista”, em relação à eventos futuros [1,2]. Na psicologia social, uma propensão similar à esta já havia sido identificada nos anos 1970 e batizada de crença em um mundo justo [3]. Obviamente, esta crença (a de que o mundo é inerentmente justo) é bem otimista em relação à realidade cruel que salta aos nossos olhos diariamente, quando lemos ou ouvimos um noticiário. De acordo com esta ideia, as pessoas acreditam que o mundo é fundamentalmente justo e que coisas ruins acontecem com pessoas ruins – todos passam pelo que merecem [4].


A tendência de ver o mundo por lentes cor-de-rosa foi investigada em dois artigos publicados este mês na revista Nature [1,2]. Para não me alongar muito, comentarei apenas sobre o trabalho de Sharot, Korn e Dolan, que buscou uma melhor compreensão dos princípios computacionais e biológicos que sustentam nossas predições enviesadamente otimistas sobre eventos futuros [1]. Mesmo quando apresentadas com evidências que contradizem suas expectativas otimistas, as pessoas tendem a mantê-las, mesmo em casos envolvendo fatores de risco para doenças. Como resultado deste viés cognitivo, as pessoas podem se comportar de maneira menos cautelosa, como por exemplo, praticando menos sexo seguro. Os cientistas queriam saber como as pessoas mantinham o seu excessivo otimismo mesmo quando são expostas a informações que desafiam claramente suas crenças.

Para isto, eles registraram o funcionamento cerebral dos participantes por meio de um aparelho de ressonância magnética funcional (fMRI) enquanto os participantes estimavam a probabilidade de que viveriam 80 eventos adversos diferentes, como, por exemplo, adquirir a doença de Alzheimer ou ter o carro roubado. Após uma primeira estimativa de um determinado evento, era apresentada aos participantes a probabilidade média real de que aquele evento ocorresse com alguém do mesmo contexto cultural dos participantes, e então era pedido aos participantes que estimassem novamente a probabilidade de viver aquele evento para averiguar se os participantes “atualizavam” suas expectativas de acordo com as probabilidade médias apresentadas. O interesse científico era ainda maior por este fenômeno, pois, segundo os autores, ele não é explicado devidamente por teorias de aprendizagem tradicionais.

Os pesquisadores encontraram evidências de que o otimismo se relacionava com uma menor codificação de informações indesejáveis sobre o futuro em uma região do córtex frontal, enquanto que participantes com escores maiores no traço de otimismo eram piores na atualização de erros indesejáveis na estimação nesta mesma região cerebral, mas não em uma outra também relacionada no processamento de erros. A diferença no quanto os participantes “atualizaram” suas expectativas não foi explicada pelo nível de adversidade dos eventos, nem pela familiaridade ou pelas experiências passadas com aquele evento, mas sim pelos erros de estimativa (que equivaliam à estimação inicial menos a probabilidade média real apresentada), sendo que a relação era mais forte para informações favoráveis a uma visão otimista.

Em outras palavras, quando a probabilidade média real apresentada era menor do que a estimativa inicial do participante (o risco era menor do que o participante imaginava), era mais comum os participantes atualizarem suas expectativas na segunda estimativa; mas quando a probabilidade real era maior do que a estimativa inicial dos participantes (o risco era maior do que o participante imaginava), a tendência era que eles não atualizassem suas expectativas na segunda estimativa, desprezando a nova informação em favor do seu otimismo. Os autores sugerem que o princípio computacional que mediou o otimismo irrealista no experimento foi o sinal de aprendizagem fornecido pelos erros de estimativa que teriam impactos diferentes a depender da direção mais ou menos otimista da informação. Esta conclusão também foi corroborada pelos dados obtidos neste mesmo experimento com o contraste chamado BOLD(Blood Oxygen Level-Dependent), um sinal que indica a variação do nível de oxigênio nas hemoglobinas do sangue em função da atividade neural. O estudo ofereceu um mecanismo interessante para compreender o otimismo irrealista e demonstrou como nossos viéses cognitivos podem manter esse otimismo mesmo em face de informações desencorajadoras, deixando-nos mais vulneráveis a certos riscos.

Não há dúvida, entretanto, de que sem algum otimismo poderemos nos tornar demasiadamente apáticos e fatalistas, mas o otimismo em excesso pode nos colocar em uma situação perigosa por acharmos que estamos a salvo de males que não estamos e, como o estudo comentado anteriormente indica, esta tendência é muito poderosa. Uma série de eventos danosos como a proliferação de doenças sexualmente transmissíveis, acidentes de trânsito ocasionados pela ingestão de álcool e furtos de bens pessoais são extremamente beneficiados pelo nosso viés cognitivo de cometer erros de estimativa, ou seja, pela expectativa ingênua de que aquilo nunca aconteceria conosco. Infelizmente, muitos de nós precisam viver este tipo de experiência para reconhecer os riscos que corriam.

Saber que temos uma tendência irracional e robusta de esperar o melhor dos eventos pode nos tornar mais atentos às nossas intuições e precavidos, portanto estudos desta natureza podem nos trazer uma grande contribuição social e até mesmo econômica imediata – os pesquisadores citam trabalhos que indicam que erros na estimativa foram uma das causas dacrise mundial financeira de 2008, resultante de uma expectativa otimista irrealista sobre os riscos financeiros envolvidos naquele contexto. Quantos outros possíveis erros de estimativa já não andaram influenciando os rumos das nossas vidas?

Referências:

[1] Sharot, T., Korn, C., & Dolan, R. (2011). How unrealistic optimism is maintained in the face of reality. Nature Neuroscience DOI: 10.1038/nn.2949

[2] Johnson, D., & Fowler, J. (2011). The evolution of overconfidence. Nature, 477 (7364), 317-320 DOI: 10.1038/nature10384

[3] Rubin, Z., & Peplau, A. (1973). Belief in a Just World and Reactions to Another’s Lot: A Study of Participants in the National Draft Lottery. Journal of Social Issues, 29 (4), 73-93 DOI:10.1111/j.1540-4560.1973.tb00104.x

[4] Fiske, S. T. (2010). Social beings : Core motives in social psychology. New York: Wiley.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Artigo

Pseudo-profundidade: Receitas para simular profundidade – aspirantes a gurus, tomem nota


Fonte: Psychology Today
Autor: Stephen Law*
Tradução: André Rabelo

Deepak Chopra: mestre da pseudo-profundidade e da pseudociência

Ao redor do mundo, audiências se sentam aos pés de experts do marketing, consultores de estilo de vida, místicos, líderes de culto e outros “gurus” à espera do próximo insight oculto e profundo. As pessoas frequentemente pagam uma boa quantia de dinheiro para ouvir estas palavras de sabedoria. Como então estes indivíduos elevados chegam aos seus insights penetrantes? Qual é o segredo da profundidade deles? Infelizmente, em alguns casos, a audiência é enganada pelas artes das trevas da pseudo-profundidade.

A arte de soar profundo é muito facilmente dominada. Você também pode fazer pronunciamentos que soem profundos – e significativos – se você estiver preparado para seguir algumas regras simples.

Primeiro, tente afirmar o incrivelmente óbvio. Só faça isto m-u-i-t-o-l-e-n-t-a-m-e-n-t-e, com uma espécie de aceno de quem sabe. Isto funciona particularmente bem se sua afirmação tiver algo a ver com algum dos grandes temas da vida, do amor, da morte e do dinheiro. Aqui estão alguns exemplos:

A morte chega para todos nós

Todos nós queremos ser amados

O dinheiro é usado para comprar coisas

Tente você mesmo. Se você pronunciar o óbvio com suficiente seriedade, seguido de uma pausa longa, você logo poderá encontrar outros começando a acenar em concordância, talvez murmurando “Isso é verdade”.

Agora que você ja se aqueceu, vamos avançar para uma técnica diferente – o uso do jargão. Algumas palavras grandes, não totalmente compreendidas, podem facilmente realçar a ilusão de profundidade. Tudo o que é necessário é um pouco de imaginação.

Para começar, tente combinar algumas palavras que tenham significados similares com certos termos familiares, mas que se diferenciem deles de alguma maneira sútil e nunca-totalmente-explicada. Por exemplo, não fale sobre pessoas sendo felizes ou tristes, mas sim sobre pessoas tendo “orientações atitudinais positivas e negativas”. Isso soa muito mais impressionante e científico, não soa?

Agora tente traduzir alguns truísmos tediosos para a sua nova linguagem inventada. Por exemplo, o fato óbvio de que pessoas felizes tendem a fazer outros pessoas mais felizes pode ser expresso como “orientações atitudinais positivas têm alta transferabilidade”.

Igualmente, se você é um guru dos negócios, líder de culto ou um místico, sempre ajuda falar de “energias” ou “equilíbrios”. Isso faz com que soe como se você tivesse descoberto algum mecanismo profundo ou poder que poderia potencialmente ser aproveitado e usado pelos outros. Isto vai tornar muito mais fácil convencer as pessoas de que se elas não acreditarem no seu conselho, eles vão estar realmente perdendo. Por exemplo, publique um artigo intitulado “Aproveitando energias atitudinais positivas dentro do ambiente de varejo”, e voilá, outro guru moderno dos negócios nasceu.

Finalmente, se alguém realmente tiver a coragem de perguntar exatamente o que uma “energia atitudinal positiva” é, você sempre pode dar uma definição usando outros pedaços do seu jargão recém inventado, deixando seus questionadores sem saber nada a mais do que eles sabiam antes. Se todo o seu jargão é definido usando outro jargão, ninguém nunca vai ser capaz de entender exatamente o que você quer dizer (embora seus devotos possam pensar que sabem). E o fato de que enterrados dentro de suas pseudo-profundidades estão alguns truísmos verdadeiros vai dar à sua audiência a impressão de que você realmente deve estar certo sobre algo, mesmo que eles não entendam o que é. E então eles vão estar ansiosos para ouvir mais.

Infelizmente, alguns líderes de culto, gurus de negócio, místicos, consultores de estilo de vida, terapeutas – e até mesmo alguns filósofos – fazem uso destas técnicas para gerar a ilusão de que eles possuem insights profundos e penetrantes. Agora que você pode ver quão fácil é gerar suas próprias pseudo-profundidades, eu estou certo de que você ficará menos impressionado na próxima vez que algum “guru” auto-intitulado sugerir que suas energias atitudinais precisam se equilibrar.

Outro segredo da pseudo-profundidade é selecionar duas palavras que tenham significados opostos ou incompatíveis e combinar eles de forma enigmática, como em:

A sanidade é apenas outra forma de loucura

A vida é muitas vezes uma forma de morte

O ordinário é extraordinário

Tente isso por conta própria. Você logo irá começar a soar profundo. No romance de George Orwell 1984, os três slogans da festa são todos exemplos deste tipo de pseudo-profundidade:

Guerra é paz

Liberdade é escravidão

Ignorância é força

Um aspecto particularmente útil destas afirmações é que elas fazem sua audiência fazer todo o trabalho por você. “Liberdade é um tipo de escravidão” por exemplo, é interpretável de tantas maneiras que você provavelmente nem pensou. Apenas sente, adote uma expressão como a de um sábio e deixe sua audiência entender o que você quis dizer.

Nada disso signica que este tipo de afirmação enigmática não possa ser profundo, é claro. Mas, dada a facilidade com a qual elas são geradas, é sábio não ser tão facilmente impressionado.

______________________________________________________________________

*Stephen Law, Ph.D., é um ex-carteiro, que se tornou um filósofo profissional. Ele publicou dez livros e é um conferencista sênior na Universidade de London.


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Fonte: site do Flávio Gikovate. O áudio foi deletado do site, mas os editores deste blog (Bule voador) fizeram download antes.

Flávio Gikovate. Foto: mixpalestras.com.br

Eis o que acontece quando um profissional de psiquiatria vive de reciclar preconceitos populares e psicanalíticos para vender livros em vez de se manter atualizado com a literatura científica – e com movimentos sociais que promovem uma visão acurada e realista, em vez de preconceituosa, sobre minorias.

Basicamente, o psiquiatra vendedor de livros afirma que:

1) Gays adoram banheiro sujo.
2) Gays adoram relações perigosas, sujas, grosseiras e sujeira em geral.
3) É mentira essa história de que não dá para “evoluir” para relação heterossexual.
4) Geralmente homens sensíveis crescem e viram gays porque são ridicularizados pela sociedade ou pelos pais que tanto os desprezaram. Os pais acabam servindo de influência para futuros modelos de atração psicológica, numa teoria freudiana concebida em priscas eras pré-científicas da psicologia.
5) Gostam de promiscuidade.

No mínimo o psiquiatra, depois de afirmar isso e muito mais na palestra, tem que ter questionada sua capacidade de acompanhar a literatura científica em sexologia e psicologia; e é claro, se retratar, afirmando textualmente que suas afirmações sobre a saúde mental dos homossexuais e a origem da homossexualidade não passam de evidências anedóticasperigosas.

Ouça aqui:
00:00
00:00

Para quem não conseguiu ouvir no player e prefere baixar a mp3: clique aqui com o botão direito e depois clique em “Salvar como…”

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Reportagem

Fonte: Carta Capital

Pluralismo às avessas

Vem de Brasília, como não poderia deixar de ser, a novidade no festival de excentricidades em que se constitui a política nacional. Uma nova sigla deverá ser acrescentada à encorpada sopa de letras que define nosso sistema partidário. Depois do PSD do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, provavelmente passaremos a contar, já nas eleições municipais de 2012, com o PPL (Partido Pátria Livre). Basta que os doutos senhores da corte máxima da Justiça Eleitoral brasileira, o TSE, concedam registro definitivo à legenda.

Não se trata de desprezo pela democracia, pelo pluralismo de idéias e pelo sagrado direito fundamental dos cidadãos – oportunamente garantido pela Constituição Federal de 1988, a primeira pós- ditadura militar – de se manifestar livremente e de participar da arena partidária nacional por meio de legendas que representem suas convicções político-ideológicas.

Muito pelo contrário. O que motiva este artigo e inspira a análise que fazemos sobre as novas legendas é o mais puro espírito democrático. Mas de que democracia falamos? A preconizada pelo filósofo e historiador italiano Norberto Bobbio, falecido em 2004. Para Bobbio, a democracia se fundamenta em três princípios: a ética, a honestidade e o respeito aos interesses da maioria, acima dos individuais.

Com a palavra, o autor: “Não há boa democracia sem costume democrático, e costume democrático significa ser honesto no exercício dos próprios negócios, leal nas trocas (…), respeitar a si e aos outros, estar consciente das obrigações, não somente jurídicas, mas também morais, que cada um de nós tem para com o próximo (…); enfim, saber distinguir e não confundir interesses privados e públicos”.

Inspirado neste conceito de democracia, este artigo se propõe a levantar uma dúvida crucial: a criação destes dois novos partidos representa, efetivamente, os interesses do conjunto da sociedade brasileira? Mais: no extenso leque de 27 siglas existentes no cenário partidário nacional, não há absolutamente nenhuma que traduza as aspirações dos criadores destas siglas?

Ruim com os partidos, pior sem eles, reza a cartilha da democracia política verde e amarela, que se assenta no pluralismo. Mas o fato é que, pluralismo à parte, quem paga a conta da criação de novos partidos somos nós, os contribuintes. Afinal, diferentes dos contribuintes, as legendas usufruem o privilégio de não pagar impostos, prerrogativa garantida pelo artigo 150 da Constituição Federal de 1988. Veiculam propaganda no horário eleitoral gratuito à custa da isenção de impostos das emissoras de rádio e TV.

E, sim, recebem dinheiro público. Está lá no site do TSE, para quem quiser conferir: de janeiro a julho de 2011, o Orçamento da União garantiu ao Fundo Especial de Assistência Financeira aos Partidos Políticos cerca de 302 milhões de reais – 265,35 milhões de reais referentes aos duodécimos (o valor garantido a cada partido proporcionalmente à sua representação no Congresso Nacional) e 36,13 milhões de reais referentes às multas pagas pelos eleitores e candidatos condenados judicialmente).

Quem recebeu a maior bolada foi o PT (33,11 milhões reais), mas mesmo o quase desconhecido PCO (Partido da Causa Operária), o lanterna da lista, ganhou nada desprezíveis 303 mil reais. Com a ajuda do colega Silênio Vignoli, lembramos: dos 27 partidos brasileiros, apenas 22 têm representação na Câmara Federal e oito (1/3, portanto) têm apenas de um a quatro deputados.

Disto recorre o óbvio: o fato de se criar uma nova estrutura partidária não é garantia suficiente para a existência da representatividade. Esta só se dá de fato, como nos ensina Bobbio no texto que citamos, quando os interesses coletivos superam os individuais e quanto a sigla em questão tem efetiva base na maioria – de preferência, popular.

A diversidade de idéias políticas não é sinônimo de ética e nem de inteligência. Da forma como o sistema partidário tem sido conduzido, o que temos é um pluralismo às avessas, no qual a defesa das convicções de um grupo – muitas vezes sem nenhuma base no movimento social – é custeada por todos. Ou seja: as convicções são pessoais, mas quem paga a conta pela sua defesa é o coletivo. Há algo de errado no sistema partidário brasileiro. E a culpa não está nos milhões de eleitores que exercem seu sagrado direito de voto, a cada dois anos.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Artigo

Autor: Michael Shermer

Traduzido por: Camilo Gomes Jr.

Texto original em inglês publicado em: The Work of Michael Shermer

Temos cérebros propensos à credulidade acrítica.

O PRESIDENTE OBAMA NASCEU MESMO NO HAVAÍ? Eu acho essa pergunta tão absurda — para não dizer que é possivelmente racista em sua motivação — que, quando me deparo com “birthers1 que não pensam como eu, acho difícil até mesmo me concentrar em seus argumentos sobre a diferença entre uma certidão de nascimento e um atestado de nascimento com vida. Isto porque, uma vez que formei uma opinião sobre o assunto, ela se tornou uma crença, sujeita a inúmeros vieses cognitivos que assegurem sua verossimilhança. Será que estou sendo irracional? É possível. Na verdade, é assim que a maioria dos sistemas de crença funciona para a maioria de nós na maior parte do tempo.

Formamos nossas crenças por várias razões subjetivas, emocionais e psicológicas no contexto de ambientes criados pela família, por amigos, colegas, pela cultura e pela sociedade como um todo. Após formarmos nossas crenças, nós então as defendemos, justificamos e racionalizamos com inúmeras razões intelectuais, argumentos convincentes e explicações racionais. As crenças vêm primeiro; as explicações para as crenças vêm depois. Em meu novo livro, The Believing Brain [O Cérebro Crédulo] (Holt, 2011), chamo esse processo em que nossas percepções sobre a realidade dependem das crenças que mantemos a respeito dela de realismo dependente de crenças. A realidade existe independentemente das mentes humanas, mas o entendimento que temos dela depende das crenças que mantemos num dado momento.

Eu tomei como exemplo para o realismo dependente de crenças o realismo dependente de modelos (ou modelo-dependente) apresentado pelos físicos Stephen Hawking e Leonard Mlodinow em seu livro The Grand Design [O Grande Projeto] (Bantam Books, 2011). Nele, os dois afirmam que, como nenhum modelo sozinho é adequado para explicar a realidade, “não se pode dizer que um é mais real do que o outro”. Quando se unem tais modelos a teorias, eles constituem completas visões de mundo.

Uma vez que formamos crenças e nos comprometemos com elas, passamos a mantê-las e a reforçá-las através de diversos vieses cognitivos poderosos que distorcem nossos perceptos de modo a se ajustarem a conceitos relativos a crenças nossas. Entre eles estão:

O VIÉS DA ANCORAGEM: apegar-se demais a uma âncora de referência ou elemento de informação (como, p. ex., um dado detalhe ou uma primeira impressão) na hora de tomar decisões.

Capa do livro "The Believing Brain", de Michael Shermer.

O VIÉS DA AUTORIDADE: valorizar a opinião de uma autoridade, sobretudo na avaliação de algo de que temos pouco conhecimento.

O VIÉS DE CRENÇA: avaliar a força de um argumento com base na credibilidade de sua conclusão.

O VIÉS DE CONFIRMAÇÃO: buscar encontrar evidências confirmativas que deem sustentação a crenças já existentes, ignorando ou reinterpretando evidências refutatórias.

Acima de todos esses vieses, há o viés intragrupo, pelo qual atribuímos mais valor às crenças daqueles que percebemos como membros de nosso próprio grupo e menos valor ao que acreditam os que pertencem a outros grupos. Isso é resultado de nossos cérebros tribais evoluídos, que nos levam não só a fazer tal juízo de valor a respeito de crenças alheias, mas também a demonizá-las e desprezá-las como absurdas ou malignas, ou ambas as coisas.

O realismo dependente de crenças é aprofundado ainda mais por um metaviés chamado viés do ponto cego, isto é, a tendência a reconhecermos o poder de vieses cognitivos em outras pessoas, mas sermos cego para as influências destes sobre nossas próprias crenças. Nem mesmo cientistas estão imunes, estando sujeitos ao viés do experimentador, ou seja, a tendência de os observadores notarem, selecionarem e publicarem dados que estejam de acordo com suas expectativas quanto ao resultado do experimento, enquanto dados que as contradigam são ignorados, descartados ou não recebem crédito.

Michael Shermer: psicólogo, historiador da ciência e editor da prestigiada Skeptic Magazine.

Essa dependência da crença e de seus inúmeros vieses psicológicos é o porquê de termos na ciência um maquinário autocorretivo indispensável. Há exigência de grupos de rigoroso controle duplo-cego, em que nem os sujeitos nem os experimentadores têm conhecimento das condições durante a coleta de dados. A colaboração com colegas é vital. Resultados são submetidos a exames minuciosos em conferências e em periódicos em que há revisão por pares. A pesquisa é reproduzida em outros laboratórios. Evidências refutatórias e interpretações contraditórias de dados são incluídas na análise. Se você não buscar dados e argumentos contra sua teoria, outra pessoa o fará, normalmente com imensa satisfação, em algum fórum aberto ao público. Eis por que o ceticismo é uma condição sine qua non na ciência, a única maneira com que contamos para escapar da armadilha do realismo dependente de crenças criado por nossos cérebros propensos à credulidade.

————–

NOTA

1 Birthers [algo como "Nascimentistas"] são os adeptos da teoria conspiratória de que Barack Obama não teria nascido em solo americano ou até mesmo de que seria realmente estrangeiro, hipóteses, ambas, que, se fossem demonstradas factuais, impediriam-no de ser presidente dos EUA, segundo determinações constitucionais.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Videos

Vale a pena conferir o vídeo abaixo.

http://www.ted.com/talks/lang/por_br/eli_pariser_beware_online_filter_bubbles.html?refid=0




Thiago Oliveira

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Artigo

Fonte: LiveScience

Via: Hypescience

Editor: Eduardo Patriota Gusmão Soares

Richard WisemanRichard Wiseman é mágico profissional e psicólogo americano. Intrigado com o lado inusitado da experiência humana, ele realizou pesquisas sobre sorte, mentiras e atividade paranormal.

Em seu novo livro, “Paranormalidade”, ele investiga profundamente a ciência (ou falta dela) das assombrações, fenômenos psíquicos, telepatia e outros acontecimentos supostamente inexplicáveis.

Ele não acredita em fantasmas, e acha que você não deve acreditar também. Mas, para saber o que há naquele livro, vai ser mais difícil do que você pensa. As editoras americanas disseram a Wiseman que não havia mercado para desbancar a atividade paranormal nos EUA.

Nós discordamos, é claro. Nenhuma mídia teve omitir algum lado da verdade, apenas porque o público parece gostar do outro. E qual o fascínio do paranormal? Você, leitor(a) do Bule… tem alguma história misteriosa para compartilhar?

Confira uma breve entrevista sobre o lançamento deste novo livro de Wiseman.

**********************************

Por que as pessoas são tão atraídas às crenças paranormais?

Richard Wiseman: Um dos motivos é que elas têm experiências paranormais. Na verdade, essa é a essência do livro: tentar entender por que as pessoas têm essas experiências estranhas, uma vez que espíritos não existem. Há também a noção de que as crenças são muito reconfortantes. Se você está doente, a ideia do “curador psíquico” é boa. E depois, há a influência da indústria paranormal. Os livros, os programas de televisão, as experiências psíquicas, todos têm interesse em fazer com que o público acredite nesse material.

Então você não é um crente?

RW: Não, eu tendo a ser um pouco cético. Trabalhei nessa área por cerca de 20 anos e nunca vi nada que me convencesse de que qualquer dessas coisas fosse verdade. O que eu tenho visto é que as pessoas têm experiências estranhas, quer com fantasmas ou atividades psíquicas, que nos dizem algo sobre o seu cérebro, seu comportamento e suas crenças.

O que a crença no paranormal nos diz sobre a nossa própria psicologia?

RW: Eu acho que cada coisa nos diz algo um pouco diferente. Por exemplo, a paralisia do sono, que é a noção de acordar completamente imóvel, vendo uma figura ao pé da sua cama e você se convence de que este espírito maligno ou força demoníaca está a segurando, mantendo-lhe imóvel. Isso diz muito sobre a psicologia do sono. Quando dormimos, estamos paralisados; por isso, não “agimos” o que estamos sonhando. Essa experiência do sonho pode acontecer quando você acorda junto com a paralisia.

O que, para você, é a crença mais interessante ou estranha no paranormal?

RW: Acho que fantasmas, ou a noção de que as pessoas veem algo no canto dos olhos, especialmente se estão em um local “assombrado”. É o poder da sugestão, bem como o medo. Quando estamos com medo, o sangue flui da ponta dos dedos aos músculos principais do corpo, e você se prepara hormonalmente para “fugir ou lutar”, e isso pode lhe deixar frio. Você também pode tornar-se hipervigilante, assim, você começa a perceber passos ou vozes que não teria notado antes, e assumir que é algum tipo de atividade paranormal.

Você já fez algumas investigações que “desbancaram” fantasmas. O que você descobriu?

RW: Essas investigações foram realizadas no Hampton Court Palace, um palácio real ao sul de Londres, e em Edimburgo, na Escócia, supostamente um dos lugares mais assombrados do Reino Unido. Levamos pessoas até lá e pedimos que elas dissessem quais locais pareciam mais assombrados. Elas escolhiam frequentemente os mesmos locais. Parte das razões é que os locais eram às vezes fisicamente mais frios, devido a padrões térmicos. Às vezes, eles tinham um tipo de som estranho, de baixa frequência, que pode ser causado pelo barulho do trânsito ou o vento através de uma janela aberta. Ou os lugares apenas pareciam um pouco assustadores, porque eram escuros e nós temos um cérebro que evoluiu para nos manter fora de lugares escuros por um bom motivo.

Pessoas psíquicas são um grande negócio, e você deve ter irritado algumas delas discutindo seus truques de comércio. Em todo o seu trabalho, você não encontrou nenhuma evidência de que os videntes têm capacidades especiais?

RW: Não, eu só descobri que eles são muito bons em enganar as pessoas. Nesse caso, eles têm capacidades muito especiais, mas de enganação. A crença paranormal cruza a linha entre ser divertida para se tornar algo sério. As pessoas vão para médiuns porque têm problemas, sejam pessoais ou financeiros. Mas você está falando com alguém que, ao contrário de um terapeuta profissional que lhe daria ferramentas para resolver seus problemas, apenas lhe dá conselhos. Você se torna dependente deles. E não há maneira de saber se eles estão dando bons conselhos, pois eles não são treinados para isso. Não há regulamentação no setor. Então, você está colocando sua vida nas mãos de uma pessoa que não sabemos se é confiável.

Como os videntes fazem as pessoas acreditarem neles?

RW: Há a noção de que algumas afirmações gerais são verdadeiras para todos. Como “você tem um monte de criatividade não expressa”. Todo mundo quer acreditar que isso é verdade. Ou às vezes há frases com duplo sentido, como “às vezes você gosta de ser o centro das atenções em uma festa, e às vezes você gosta de ficar em casa com um livro”. Isso é verdade para todos. No mais, as pessoas ignoram o lado que não se aplica a elas. Há a “leitura a frio” também, onde os “psíquicos” se guiam pelo que você apresenta. Eles dizem algo como “você vai viajar em breve”, e se não obter resposta, eles vão dizer que talvez seja uma pequena viagem de fim de semana, mas se você começar a balançar a cabeça em afirmativa, quase concordando inconscientemente, eles dizem que deve ser uma grande viagem. Com tudo isso, você está fazendo o trabalho para eles. Se vale algo, eles é que deveriam estar pagando você.

Seu livro é publicado no Reino Unido e em outros países, mas você não conseguiu encontrar uma editora disposta a publicá-los nos EUA. Existe uma diferença entre a crença paranormal nos EUA?

RW: Não sei bem. Eu suspeito que seja cultural. Cerca de 40 a 50% das pessoas no Reino Unido e na Europa alegam ter experiência paranormal, contra 70 a 80% nos EUA. Eu suspeito que parte disso seja a programação: livros, rádio e televisão empurrando a agenda psíquica. Acrescido de alfabetização, a ciência é maior no Reino Unido do que nos EUA, talvez por isso a indústria psíquica passe mais sua mensagem desse lado do mundo.

Para os com imaginação descontrolada, você tem alguma dica sobre como se livrar do pânico quando se está sozinho em casa e você tem certeza de que há algo bem atrás de você?

RW: Fugir aos gritos é sempre bom. Brincadeira. Apenas saber o que está acontecendo ajuda. Meu livro incentiva as pessoas a fazer sessões do tabuleiro Ouija (brincadeira famosa. Se trata de qualquer superfície plana com letras, números ou outros símbolos em que se coloca um indicador móvel, utilizada supostamente para comunicação com espíritos. Conhecida também como “brincadeira do copo”). Não se trata de convocar espíritos, mas sim do movimento dos jogadores inconscientes que empurram o copo. Peça para o espírito soletrar seu nome. Se colocar as letras viradas para baixo e misturadas, vai ver como o “espírito” se tornará disléxico. Da mesma forma, depois de entender a paralisia do sono, ela não é tão assustadora. Ao compreender essas coisas, elas se tornam muito menos “fantasmagóricas” e bem mais plausíveis.


Link: livescience