quinta-feira, 7 de julho de 2011

Artigo

Ainda arranjarei um tempo para expor minhas próprias opiniões novamente nesse blog, mas a ocupação com aulas e doutorado me toma o pouco tempo que tenho. Enquanto isso, repassarei todas os artigos e reportagens com os quais concordo e cujas ideias defendo. Segue mais um artigo exposto no site bule voador sobre o tema bastante discutido na atualidade, a saber, a homoafetividade. Boa leitura.


Fonte: Uma Visão do Mundo

Autor: Eduardo Patriota Gusmão Soares

Protesto religioso: God Hates Fags (Deus Odeia Viados)

Religiosos comparecem a enterros de gays com cartazes dizendo que deus odeia gays

Gays, lésbicas, simpatizantes, homofobia, PL 122, união homoafetiva. Temas em pauta nas nos debates entre conservadores, homossexuais e defensores dos direitos humanos. Um enorme gasto de energias e esforços para resolver algo que, a priori, sequer é um problema. Retomaremos este ponto mais tarde, mas agora precisamos entender como chegamos às trincheiras desta guerra e toda a falta de sentido que a caracteriza.

O texto é longo, compilado de vários lugares. Dividi-o em partes para facilitar a leitura. Aos que já conhecem sobre as matérias, deixo minha opinião na parte de conclusão deste texto.

A homossexualidade na antiguidade

Embora não valha completamente para provar que havia total e irrestrita liberdade sexual, sem discriminações, nos povos antigos, vale observar um pouco como era a vida sexual naquela época.

As tribos das ilhas de Nova Guiné, Fiji e Salomão, no oceano Pacífico, cerca de 10 mil anos atrás já exercitavam algumas formas de homossexualidade ritual. Os melanésios acreditavam que o conhecimento sagrado só poderia ser transmitido por meio do coito entre duplas do mesmo sexo. No rito, um homem travestido representava um espírito dotado de grande alegria – e seus trejeitos não eram muito diferentes dos de um show de drag queens atual.

Um dos mais antigos e importantes conjuntos de leis do mundo, elaborado pelo imperador Hammurabi na antiga Mesopotâmia em cerca de 1750 a.C., contém alguns privilégios que deveriam ser dados aos prostitutos e às prostitutas que participavam dos cultos religiosos. Eles eram sagrados e tinham relações com os homens devotos dentro dos templos da Mesopotâmia, Fenícia, Egito, Sicília e Índia, entre outros lugares. Herdeiras do Código de Hammurabi, as leis hititas chegam a reconhecer uniões entre pessoas do mesmo sexo. E olha que isso foi há mais de 3 mil anos.

Sexo entre homens retratado em vaso gregoNa Grécia e na Roma da Antiguidade, era absolutamente normal um homem mais velho ter relações sexuais com um mais jovem. O filósofo grego c (469-399), adepto do amor homossexual, pregava que o coito anal era a melhor forma de inspiração – e o sexo heterossexual, por sua vez, servia apenas para procriar. Para a educação dos jovens atenienses, esperava-se que os adolescentes aceitassem a amizade e os laços de amor com homens mais velhos, para absorver suas virtudes e seus conhecimentos de filosofia. Após os 12 anos, desde que o garoto concordasse, transformava-se em um parceiro passivo até por volta dos 18 anos, com a aprovação de sua família. Normalmente, aos 25 tornava-se um homem – e aí esperava-se que assumisse o papel ativo.

Entre os romanos, os ideais amorosos eram equivalentes aos dos gregos. A pederastia (relação entre um homem adulto e um rapaz mais jovem) era encarada como um sentimento puro. No entanto, se a ordem fosse subvertida e um homem mais velho mantivesse relações sexuais com outro, estava estabelecida sua desgraça – os adultos passivos eram encarados com desprezo por toda a sociedade, a ponto de o sujeito ser impedido de exercer cargos públicos.

Boa parte do modo como os povos da Antiguidade encaravam o amor entre pessoas do mesmo sexo pode ser explicada – ou, ao menos, entendida – se levarmos em conta suas crenças. Na mitologia grega, romana ou entre os deuses hindus e babilônios, por exemplo, a homossexualidade existia. Muitos deuses antigos não têm sexo definido. Alguns, como o popularíssimo hindu Ganesh, da fortuna, teriam até mesmo nascido de uma relação entre duas divindades femininas. Não é nada difícil perceber que, na Antiguidade, o sexo não tinha como objetivo exclusivo a procriação. Isso começou a mudar, porém, com o advento do cristianismo.

As origens e causas do preconceito e perseguição aos homossexuais

O judaísmo já pregava que as relações sexuais tinham como único fim a máxima exigida por Deus: “Crescei e multiplicai-vos”. Diferentemente dos deuses dos povos vizinhos de Israel, a sua divindade era alheia à sexualidade, embora exortasse os homens à procriação, único fito aceitável da atividade sexual, pelo que a sua única modalidade admissível correspondia à intromissão do pênis na vagina, visando à gravidez. Segundo a Bíblia, todo e qualquer ato sexual que não resulte, potencialmente, ao menos, em procriação, é antinatural e condenado por deus, o que tornou os judeus uma exceção, dentre as civilizações antigas, na sua condenação da atividade sexual estéril, o que incluía a homossexualidade.

Até o início do século 4, essa idéia, porém, ficou restrita à comunidade judaica e aos poucos cristãos que existiam. Nessa época, o imperador romano Constantino converteu-se à fé cristã – e, na seqüência, o cristianismo tornou-se obrigatório no maior império do mundo. Como o sexo passou a ser encarado apenas como forma de gerar filhos, a homossexualidade virou algo antinatural. Data de 390, do reinado de Teodósio, o Grande, o primeiro registro de um castigo corporal aplicado em gays.

Do cristianismo provém uma alteração das mentalidades e os critérios intelectuais da condenação, crescente, da homossexualidade e de qualquer atividade sexual estéril. Ele formulou quatro opiniões:

1ª- a de que a homossexualidade ligava-se ao comportamento de certos animais, reputados como impuros, a saber, a lebre, a hiena, a doninha;

2ª – a de que a homossexualidade relacionava-se com o politeísmo, com o qual o cristianismo antagonizava (afinal, diversos povos na época aceitavam a homossexualidade, já que seus deuses a praticavam);

3ª – a de que a sexualidade natural correspondia à destinada reprodução e de que a homossexualidade era anormal no sentido de infreqüente;

4ª – a de que o papel de súcubo era vergonhoso.

O primeiro texto de lei proibindo sem reservas a homossexualidade foi promulgado mais tarde, em 533, pelo imperador cristão Justiniano. Ele vinculou todas as relações homossexuais ao adultério – para o qual se previa a pena de morte. Mais tarde, em 538 e 544, outras leis obrigavam os homossexuais a arrepender-se de seus pecados e fazer penitência. O nascimento e a expansão do islamismo, a partir do século 7, junto com a força cristã, reforçaram a teoria do sexo para procriação.

Durante muito tempo, até meados do século 14, no entanto, embora a fé condenasse os prazeres da carne, na prática os costumes permaneciam os mesmos. A Igreja viu-se, a partir daí, diante de uma série de crises. Os católicos assistiram horrorizados à conversão ao protestantismo de diversas pessoas após a Reforma de Lutero. E, com o humanismo renascentista, os valores clássicos – e, assim, o gosto dos antigos pela forma masculina – voltaram à tona. Pintores, escritores, dramaturgos e poetas celebravam o amor entre homens. Além disso, entre a nobreza, que costumava ditar moda, a homossexualidade sempre correu solta. E, o mais importante, sem censura alguma – ficaram notórios os casos homossexuais de monarcas como o inglês Ricardo Coração de Leão (1157-1199).

No curto intervalo entre 1347 e 1351, a peste negra assolou a Europa e matou 25 milhões de pessoas. Como ninguém sabia a causa da doença, a especulação ultrapassava os limites da saúde pública e alcançava os costumes. O “pecado” em que viviam os homens passou a ser apontado como a causa dela e de diversas outras catástrofes, como fomes e guerras. Judeus, hereges e sodomitas tornaram-se a causa dos males da sociedade. Não havia outra solução a não ser a erradicação desses grupos. Medidas enérgicas foram tomadas. Em Florença, por exemplo, a sodomia foi proibida em 1432, com a criação dos Ufficiali di Notte (agentes da noite). O resultado? Setenta anos de perseguição aos homens que mantinham relações com outros. Entre 1432 e 1502, mais de 17 mil foram incriminados e 3 mil condenados por sodomia, numa população de 40 mil habitantes.

Leis duras foram estabelecidas em vários outros países europeus. Na Inglaterra, o século 19 começou com o enforcamento de vários cidadãos acusados de sodomia. E, entre 1800 e 1834, 80 homens foram mortos. Apenas em 1861 o país aboliu a pena de morte para os atos de sodomia, substituindo-a por uma pena de dez anos de trabalhos forçados.

A homossexualidade é tão natural (ainda que incomum) quanto a heterossexualidade

O zoologista da Universidade de Oslo, Petter Böckman, afirma que são conhecidas mais de 1.500 espécies de animais que praticam sexo com parceiros do mesmo gênero. “A grande questão é como explicar qual é o sentido evolutivo”, diz César Ades, etólogo (especialista em comportamento animal) da USP (Universidade de São Paulo). “A atividade homossexual pode ser uma maneira de reduzir conflitos sociais entre indivíduos do mesmo grupo, de fortalecer as escalas de dominância e de criar alianças.”

“Porém, é importante ressaltar que tais comportamentos são muito variados e não podem ser entendidos, como um todo, como idênticos à homossexualidade no ser humano, que se insere numa realidade sócio-cultural complexa. Mas podem indicar a generalidade de certos processos de atração entre indivíduos do mesmo sexo”, explica.

Os autores de um estudo de 2009, Nathan Bailey e Marlene Zuk, da Universidade da Califórnia em Riverside, dão um exemplo. Veja as fêmeas do albatroz-de-laysan (Phoebastria immutabilis), do Havaí. Essas aves se unem em casais lésbicos que às vezes duram a vida inteira para criar os filhotes, especialmente quando há escassez de machos. Até um terço dos casais da espécie são formados por fêmeas. O resultado é que elas têm mais sucesso do que fêmeas “solteiras” na criação dos filhotes. O comportamento homossexual, portanto, muda a dinâmica da população – e pode ter consequências evolutivas importantes.

Alguns estudos recentes sugerem que fatores neurobiológicos podem influenciar na orientação sexual dos homens. Cientistas suecos descobriram que o cérebro dos homossexuais é parecido com o de pessoas do sexo oposto ao de sua orientação. Dito de outra forma, o cérebro de um homem homossexual teria semelhanças com o de uma mulher, enquanto o de uma lésbica seria similar ao de um homem hetero.

Apesar de quase um século de especulação psicoanalítica e psicológica, não existe evidência substancial que suporta a hipótese de que a natureza da orientação sexual dos pais ou as experiências infantis tem algum papel na formação fundamental da orientação heterossexual ou homossexual. A orientação sexual é biológica em sua natureza, determinada por uma complexa rede de fatores genéticos e do desenvolvimento uterino inicial.

Por consenso mundial, homossexualidade não é doença, nem transtorno, tampouco um problema a ser tratado

Desde dezembro de 1973, a homossexualidade deixou de ser classificada como transtorno mental pela Associação Americana de Psiquiatria (APA), sendo retirada do Manual de Diagnóstico e Estatística de Desordens Psiquiátricas; em 1975, a Associação Americana de Psicologia adotou o mesmo procedimento, deixando de considerar a homossexualidade como doença, distúrbio ou perversão.

No Brasil, em 1985, o Conselho Federal Medicina (CFM) deixa de considerar a homossexualidade como desvio sexual, esclarecendo aos médicos, em particular aos psiquiatras, que homossexualismo não pode ser aplicado nem sustentado como diagnóstico médico.

A 43ª Assembléia Geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), no dia 17 de maio de1990, retirou a homossexualidade da sua lista de doenças ou transtornos mentais, suprimindo-a do Código Internacional de Doenças (CID-10), a partir de 1993.

Em 1991, a Anistia Internacional passa a considerar a discriminação contra a homossexualidade como violação aos direitos humanos.

Em 22 de março de 1999, o Conselho Federal de Psicologia, por meio da resolução 01/1999, estabelece normas para atuação dos psicólogos em relação à questão da orientação sexual, pois, “…considerando que a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão (…) e que a Psicologia pode e deve contribuir com seu conhecimento para o esclarecimento sobre as questões da sexualidade, permitindo a superação de preconceitos e discriminações (…)”;

A homossexualidade não torna ninguém pervertido

Ricky Martin, gay assumido, tem filhos e grande responsabilidade social

Ricky Martin, gay assumido, posa com seus filhos para foto. O cantor mantém uma fundação, a Ricky Martin Foundation, que ajuda crianças em todo o mundo, combatendo o tráfico, violência, doenças e a fome.

A compilação abaixo foi realizada por Francisco Boni, membro do Conselho de Mídia da LiHS. As fontes das pesquisas podem sem encontradas no site Paul Cameron Refutado.

Há um mito, propagado pela Direita Cristã, de que homossexuais engajam em comportamentos promíscuos. Seguramente, há homossexuais que engajam em tal comportamento. Mas há heterossexuais que fazem a mesma coisa. É importante notar a tendência substância heterossexista que faz com que as pessoas ignorem as falhas heterossexuais enquanto focam nas falhas homossexuais.

Em um estudo de comportamento sexual em homossexuais e heterossexuais, os pesquisadores descobriram que dos homens bissexuais e gays, 24% tiveram um parceiro durante toda vida, 45% tiveram 2-4 parceiros homens, 13% tiveram 5-9 parceiros homens, e 18% tiveram 10 ou mais parceiros sexuais, o que produz uma média de 6 parceiros (p. 345)(n=97 de homens gays de um total de 1450 homens). Em um estudo paralelo, uma amostra aleatória de homens heterossexuais (n=3111 homens que tiveram sexo vaginal; de uma amostra total de n=3224, somente 2.3% indicaram terem feito sexo com homens e mulheres), o número médio de parceiros sexuais foi 7.3%, com 28.2% com 1-3 parceiros sexuais, 23.3% tendo mais de 19 parceiros. Isso indica que homens gays tem um número de parceiros sexuais menores que heterossexuais.

Homossexuais não possuem predisposição a serem pedófilos. Em uma amostra aleatória de 175 casos de abusadores sexuais der crianças 76% reportam terem comportamento exclusivamente heterossexual, e 24% reportam comportamento bissexual. A atração sexual por crianças não é relacionada à orientação sexual

Em um segundo estudo de 1206 condenações de abusadores de crianças em Nova Jersey, 80.7% eram heterossexuais e 19% eram homossexuais.

Em um terceiro estudo, 47% dos homens condenados por abuso sexual contra crianças (meninos) estavam dentro de um casamento heterossexual.

Em um quarto estudo na Inglaterra, em uma revisão de 200 ataques sexuais à garotos, apenas 32 dos perpetradores eram homossexuais.

Em um quinto estudo de 148 abusadores que atacaram sexualmente crianças em Massachusetts, 71 (51%) selecionaram meninas, e 31 (21%) atacaram meninos e meninas, Ainda, os autores reportam que “os condenados atraídos por meninos reportaram que não tem interesse em relações homossexuais entre adultos e acharam a aparência feminina dos meninos juvenis atraente…” (p.20) Os pedófilos eram atraídos por crianças e adultos (51%), 83% exclusivamente heterossexuais, e 17% bissexuais.

Em um sexto estudo de 136 condenados, mais de 80% estavam envolvidos em relações adultas heterossexuais de longa data.

Em um sétimo estudo no Hospital Infantil de San Diego, dos 140 garotos que foram atacados, apenas 4% foram atacados por homossexuais.

Em um oitavo estudo, também em um hospital infantil, de 269 crianças avaliadas para abuso sexual por adultos conhecidos, 0.7% das crianças foram abusadas por um homossexual e 88% foram abusados por heterossexuais. O resto das crianças (de um total de 352) foram ou abusadas por outras crianças ou adolescentes (21% da amostra total, daqueles que foram abusados por crianças/adolescentes do sexo oposto), ou por estranhos cuja orientação sexual era desconhecida (11.6%).

Finalmente, a discussão sobre se homossexuais vs heterossexuais estão mais propensos à molestar crianças ignora completamente a pesquisa atual a cerca da psicopatologia do molestador de crianças. Por definição, o pedófilo é uma pessoa que é atraída por crianças. Já que crianças, típicamente, não apresentam características sexuais secundárias diferenciadas como adultos, o heterossexual ou homossexual típico não são sexualmente atraídos por crianças. Se um adulto é atraído por uma criança, isso está relacionado com sua vulnerabilidade. Mesmo que a criança seja um menino sendo abusado por um homem adulto, o pedófilo não está atraído por características masculinas exatamente, como encontrado pelo estudo feito por Groth, o que seria presumido se o abusador fosse, de fato, “homossexual”.

Ainda existem uma longa lista de estudos utilizando vários métodos clínicos e outras revisões e meta-análises apontando nenhuma psicopatologia correlacionada diretamente com a homossexualidade, evidenciando ser uma orientação sexual normal como a heterossexualidade.

Por fim, uma recente pesquisa feita sobre o público gay antes da Parada de 2011 em São Paulo, descobriu-se que mais de 54% dos casais homossexuais mantém uma relação estável com seu parceiro há mais de 3 anos. Isso é mais do que muito casamento por aí.

Conclusão

Muitos não gostam de homossexuais. Isso é completamente aceitável. Tanto quanto muitos não gostam de rockeiros, pagodeiros, nerds, petistas, democratas, corintianos, flamenguistas, negros, branquelos, etc. Não é o gosto que é o problema. Você não é preconceituoso se não gostar disso ou daquilo. Você está no seu direito. O problema começa quando passamos a tratar de forma desigual e injusta o outro, penalizando-o apenas por “não gostar” de uma característica daquela pessoa.

Gay é espancado ao sair de boate em NiteróiNo caso dos gays, o problema vai muito além do tratamento desigual e injusto. Pais renegam os próprios filhos, chegando a expulsá-los de casa! Vale a pena ver o documentário “For the Bible Tells Me So” que mostra o arrependimento de uma mãe que não pôde fazer as pazes com a filha renegada, pois, esta se matou devido à pressão por sua simples condição de gay. Será mesmo que vale a pena se desfazer da companhia de uma pessoa que você ama apenas porque ela gosta de algo que um livro escrito há milhares de anos, por uma pessoa totalmente desconhecida, diz ser ruim?

Pessoas são espancadas e até mortas por uma questão estritamente pessoal, de foro mais do que íntimo e que não diz respeito a mais ninguém. Em 2010,no Brasil, foram documentados 260 assassinatos de gays, travestis e lésbicas, 62 a mais que em 2009 (198 mortes), um aumento 113% nos últimos cinco anos (122 em 2007).

Na África do Sul, por exemplo, uma onda de casos de estupros e assassinatos são cometidos por homens contra mulheres homossexuais, aparentemente com o objetivo de “corrigir” suas orientações sexuais, está assustando. Segundo estimativas, pelo menos 31 mulheres já morreram no país vítimas desse tipo de ataque nos últimos dez anos.

Em São Paulo, Edson Néris da Silva, que era adestrador de cães, passeava de mãos dadas com seu companheiro, Dario Pereira Netto, na Praça da República, região tradicionalmente frequentada por gays, quando foi surpreendido pelo grupo de neonazistas conhecido como Carecas do ABC. Dario conseguiu escapar, mas Edson foi cercado e brutalmente agredido com chutes e golpes de soco-inglês até a morte.

No Irã, um alto funcionário do governo, Mohsen Yahyavi, admitiu que gays devem ser torturados e executados. De preferência, sofrer as duas penas. É um país onde ser gay é crime capital e recentemente 2 garotos foram chicoteados e enforcados em praça pública porque… eram gays! Como se isso mudasse a vida do vizinho, ou do clérigo que mora em outra cidade, ou de qualquer pessoa que não eles próprios apenas! Com esta intolerância religiosa, estima-se que milhares e milhares de gays já tenham sido condenados à morte no Irã.

Jovens gays foram chicoteados e condenados à morte por enforcamento no IrãAgora, imagine a cena. Você nasce num país onde ser gay é crime punível com a morte. Seu filho ou filha, por obra da natureza (conforme já demonstrado anteriormente) nasce gay. Imagina o sofrimento desta pessoa por ter que viver em constante medo, ser impossibilitada de amar um outro ser humano (por favor, estamos falando em AMAR! Por que religiosos só querem saber de matar ou prejudicar uma pessoa que quer AMAR?) e ainda viver escondida com medo de morrer. É este tipo de sociedade de queremos? Então, por que construí-la, passo-a-passo, apoiando ou tolerando pastores homofóbicos que vomitam palavras de um ódio insano contra pessoas que só querem ser felizes em paz?

Como no vídeo abaixo da entrevista do Jô Soares, afinal, o que tanto incomoda um religioso se o vizinho é gay ou não? Ainda que homossexualidade fosse uma opção do indivíduo, o que eu ou você temos a ver com isso? Aliás, por que discriminar um gay e não um homem que anda com a bíblia debaixo do braço, mas trai a esposa com várias garotas de programa? Claro… o primeiro é doença, o segundo um “deslize”, um “descuido”. O primeiro é perversão, o segundo um “homem excessivamente viril”.

Os preconceituosos miram o alvo errado e perpetuam uma sociedade hipócrita, com famílias que se desfazem devido ao “pai garanhão vigoroso” (porém, devoto fervoroso de Cristo). Afinal, o que faz mais mal à sociedade? Famílias destroçadas ou um casal gay se amando na intimidade de seus quartos? Não vejo como pessoas se amando (ou no mínimo se divertindo) na privacidade de suas casas possam causar mal a alguém. Não me lembro do padre local vir se queixar com uma mãe que o filho dela andava jogando muito videogame. Ou que passava muito tempo jogando bola ou vendo televisão. Então, por que se importa se o filho desta mesma senhora está dentro de sua própria casa beijando outro homem?

Richard Dorr, 84 anos, e John Mace, 91 anos. Casal gay junto há 61 anos espera nova lei de Nova York para se casarÉ um tipo de ódio e repulsa que não tem outra origem que não o fundamentalismo de clérigos que, muitas vezes, nem são lá tão crentes do que eles mesmos falam, usando suas igrejas como meio de controle e enriquecimento financeiro e político. Vivemos num mundo onde o meio-ambiente pede socorro, há crianças morrendo, animais sendo maltratados, políticos roubando merenda de crianças famintas, governantes desviando dinheiro de hospitais onde a população morre. E, ainda assim, os que nada têm dão 10% do pouco de ganham para suas igrejas e vão às passeatas (convocadas por seus rechonchudos e corados pastores) para evitar que homossexuais que eles não conhecem, dos quais não conhecem a trajetória de vida (muitas vezes, muito mais limpa, decente e construtiva que a de seus pastores) e que talvez nunca venham a encontrar pessoalmente, possam se casar.

Afinal, se estes homossexuais estão gozando de plenos direitos, pagam seus impostos e cumprem a lei como todos os demais cidadãos, qual o fundamento em não permitir que eles se casem? Implicância religiosa. Gente mimada que não cresceu e quer que tudo seja do seu gosto. Intolerantes incapazes de conviver com o diferente. Gente que não tem nada o que fazer na vida, a não ser sair de porta em porta aos domingos pregando a bíblia para quem mal se levantou da cama. Gente que não tem objetivo na vida, a não ser cuidar da dos outros (como se estivessem precisando).

Toleramos a corrupção, mas não toleramos um casal que se ama. Aceitamos um religioso que bate em sua mulher por direito bíblico, mas não aceitamos um singelo e discreto beijo entre dois homens em público. Veneramos celebridades que se casam e se separam dezenas de vezes, quase que esculachando o matrimônio, mas não admitimos que um casal gay junto há décadas possa oficializar sua união. Enfim, as pessoas lutam por um mundo cada vez pior, quando deveria ser o contrário.

Infelizmente, muitas pessoas não ouvirão o clamor humanista pela tolerância sexual. Talvez, estas pessoas só passarão a entender o que estas palavras sobre tolerância querem construir, quando o filho ou filha homossexual chegar em casa aos prantos, humilhado por brincadeiras de colegas da escola. Ou, quem sabe, ainda pior: quando o ente querido chegar espancado ou num caixão lacrado, vítima de algum crime de intolerância sexual. Escutem os pastores por dias ainda mais sombrios, ou juntem-se aos defensores dos direitos humanos por um futuro mais tolerante e um mundo mais seguro e justo para todas as pessoas de bem. Não há meio termo. De que lado da trincheira você está?


http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=jZclI6pza6Q

Site: bulevoador


segunda-feira, 27 de junho de 2011

Reportagem

Abro espaço para mais um artigo retirado da revista "Carta capital", referente aos últimos acontecimentos relacionados aos homossexuais. O texto de Jean é claro, curto e objetivo (apesar de manter a polidez com relação à opção religiosa). É lamentável que em plena era da TV de Amoled tenhamos que aturar uma senhora como a do vídeo abaixo relacionado tentando impor sua moral mais do que arcaica e e desumana. O mal causado pelo fundamentalismo cristão e de outras denominações religiosas já foi anotado por inúmeras vezes no decorrer da história, cabe às gerações esclarecidas evitar que tais atrocidades se perpetuem.

ps: observem a qualidade do discurso da deputada Mirian Rios. É de uma ausência de intelecto (burrice) sem tamanho, cheio de falsas analogias e falácias absurdas.




Fé cega, faca amolada

O episódio envolvendo o projeto Escola Sem Homofobia do MEC e a marcha cristã contra o PLC 122 (que revê punições para quem viola a dignidade e os direitos de minorias vulneráveis, como idosos, pessoas com deficiências e LGBTs) me suscitaram uma questão que está ligada ao crescimento do fundamentalismo religioso e aos esforços deste para converter seus dogmas em leis para todos. A questão nos leva a crer que o Estado laico e de direito, as liberdades civis e o humanismo estão ameaçados pelo fundamentalismo cristão (católico e, sobretudo, evangélico neopentecostal).

Jean Wyllys: “O Estado é laico. É por ele que os congressistas devem lutar”.

Em primeiro lugar, quero ressaltar que não estou me referindo à totalidade dos crentes cristãos, mas apenas aos fundamentalistas. Conheço muitos crentes católicos e evangélicos que comungam do respeito (e até se sacrificam) pelas liberdades, pela justiça e pela humanidade. Eu mesmo fui educado no cristianismo católico e herdei, do catecismo e das comunidades eclesiais de base, o humanismo e o amor pelo outro que hoje defendo, embora não seja mais católico. Há muitos outros crentes que defendem o mesmo. Mas não é o caso dos fundamentalistas.

Cristãos fundamentalistas são aqueles que crêem na Bíblia sem interpretá-la. Acreditam nos fundamentos de sua religião como verdades absolutas e inquestionáveis – e a Bíblia, como um texto literário escrito em contexto histórico e social bastante diferente do nosso, na maioria de suas passagens não deve ser tomada ao pé da letra. O fundamentalismo religioso tem, então, total identidade com o fanatismo e com o obscurantismo.

As idéias de cristãos fundamentalistas acerca da homossexualidade – de que esta é uma doença ou um “pecado mortal” e que os homossexuais vivem em pecado e que, portanto, “não herdarão o reino dos céus” – são obscurantistas e fanáticas e abrem mão da razão. Esses “cristãos” – muitos deles ocupando espaços na tevê, nas Assembléias Legislativas, Câmaras de Vereadores e no Congresso Nacional – querem que mulheres e homens vivam segundo leis e valores descritos em um livro (a Bíblia) escrito há dezenas de séculos antes de nós. Querem que joguemos fora todas as descobertas científicas e argumentos filosóficos acumulados nos últimos dois mil anos de discurso humano para vivermos conforme vivem os personagens da Bíblia. Não! Mulheres e homens precisam desenvolver suas virtudes e possibilidades humanas, precisam ser humanistas e lutar pelas liberdades civis.

Não se calar diante da tagarelice desses parlamentares e de outros fundamentalistas é, portanto, lutar pela respeito mútuo entre os diferentes, pela solidariedade entre os seres humanos, pela liberdade de crença e de descrença (sim, ateus e agnósticos têm o direito de não crer e nem por isso devem ser considerados pessoas sem ética) e pela laicidade. Em seu Artigo 19, a Constituição afirma que o estado brasileiro é laico e que, como tal, não deve nem pode estabelecer preferências entre as religiões. O texto constitucional dá à pessoa humana o direito de acreditar ou não em um ser divino, mas, afirma que o estado não tem sentimento religioso.

A história nos mostra que o fundamentalismo em qualquer religião só leva as pessoas ao autoritarismo, à escravidão e à violência. Fundamentalistas não têm compromisso com a ética que assegura a vida nem com o bem-estar de todos. Essa gente quer estabelecer a paz dos cemitérios. Como diz a letra da canção, “fé cega, faca amolada”.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Pesquisas

Ensino religioso no Brasil estimula o preconceito e a intolerância

Estudo liderado pela professora Débora Diniz afirma que livros didáticos mais aceitos pelas escolas públicas promovem a homofobia e pregam o cristianismo
João Campos - Da Secretaria de Comunicação da UnB


Pesquisa da Universidade de Brasília conclui que o preconceito e a intolerância religiosa fazem parte da lição de casa de milhares de crianças e jovens do ensino fundamental brasileiro. Produzido com base na análise dos 25 livros de ensino religioso mais usados pelas escolas públicas do país, o estudo é apresentado no livro Laicidade: O Ensino Religioso no Brasil, que será lançado às 16h desta terça-feira, 22 de junho, no auditório do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (CEAM) da UnB.

“O estímulo à homofobia e a imposição de uma espécie de ‘catecismo cristão’ em sala de aula são uma constante nas publicações”, afirma uma das autoras do trabalho, a antropóloga e professora do Departamento de Serviço Social, Débora Diniz.

A pesquisa analisou os títulos mais aceitos pelas escolas do governo federal, segundo informações do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. A imagem de Jesus Cristo aparece 80 vezes mais do que a de uma liderança indígena no campo religioso - limitada a uma referência anônima e sem biografia -, 12 vezes mais que o líder budista Dalai Lama e ainda conta com um espaço 20 vezes maior que Lutero, referência intelectual para o Protestantismo (Calvino nem mesmo é citado).

O estudo aponta que a discriminação também faz parte da tarefa. Principalmente contra homossexuais. “Desvio moral”, “doença física ou psicológica”, “conflitos profundos” e “o homossexualismo não se revela natural” são algumas das expressões usadas para se referir aos homens e mulheres que se relacionam com pessoas do mesmo sexo. Um exercício com a bandeira das cores do arco-íris acaba com a seguinte questão: “Se isso (o homossexualismo) se tornasse regra, como a humanidade iria se perpetuar?”.

A pesquisadora Débora Diniz alerta que o estímulo ao preconceito chega ao ponto de associar uma pessoa sem religião ao nazismo – ideologia alemã que tinha como preceitos o racismo e o anti-semitismo, na primeira metade do século XX. “É sugerida uma associação de que um ateu tenderia a ter comportamentos violentos e ameaçadores”, observa. “Os livros usam de generalizações para levar a desinformação e pregar o cristianismo”, completa a especialista, uma das três autoras da pesquisa.

LEI - Os números contrastam com a previsão da Lei de Diretrizes e Base da Educação de garantir a justiça religiosa e a liberdade de crença. De número 9475, e em vigor desde 1997, a lei regulamenta o ensino de religião nas escolas brasileiras. “Há uma clara confusão entre o ensino religioso e a educação cristã”, afirma Débora Diniz. A antropóloga reforça a imposição do catecismo. “Cristãos tiveram 609 citações nos livros, enquanto religiões afro-brasilieras, tratadas como ‘tradições’, aparecem em apenas 30 momentos”, comenta a especialista.

O estudo, realizado entre março e julho de 2009, ainda revela a tênue fronteira entre as editoras responsáveis pelas publicações e a pregação religiosa. A editora FTD, por exemplo, pertence aos irmãos Maristas, sociedade religiosa nascida em 1817, na França. O interesse comercial com o material escolar surge representado pelas editoras Ártica e Scipione, que formam a Abril de Educação, líder no mercado de livros didáticos no setor privado. “É esse contexto nebuloso de relações e interesses que envolve a pesquisa” diz Débora.

Ainda foram analisadas as editoras Saraiva, Moderna e Dimensão e as religiosas Vozes, Paulus Paulinas, Vida e Edições Loyola.

SEM REGULAMENTAÇÃO

Para a psicóloga e uma das autoras do livro, Tatiana Lionço, os problemas do ensino religioso no Brasil vem da falta de regulação por parte do Estado. Ela explica que, antes de ir parar nas mochilas de crianças e jovens, todo material didático passa por uma avaliação de uma banca de profissionais do Programa Nacional do Livro Didático, vinculado ao Ministério da Educação. Todos, menos os de Religião. “Não há qualquer tipo de controle. O resultado é a má formação dos alunos”, comenta a professora.

A especialista ainda questiona o modelo de ensino religioso nas escolas do país com base no princípio constitucional de que o Estado deveria ser laico (neutro em relação às religiões). “Se o Estado deveria ser laico, por que ensinar religião nas escolas?”, provoca. “Se a religião for tratada na sala de aula, tem de ser de forma responsável e diversificada”, acrescenta a psicóloga. As 112 páginas da publicação, lançada pelas editoras UnB e Letras Livres, ainda conta com a contribuição da assistente social Vanessa Carrião, do instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero.




Reportagem

Trago hoje uma entrevista com a antropóloga e documentarista Débora Diniz, na qual ela detalha um pouco algumas questões que já haviam sido levantadas há quase um ano quando do lançamento dos resultados de uma pesquisa da UnB.

ISTOÉ – O ensino religioso nas escolas públicas, num Estado laico como o Brasil, é legítimo?

DEBORA DINIZ – Sim e não. Sim porque está previsto pela Constituição. E não quando se trata da coerência com o pacto político. Chamo de coerência a harmonia com os outros princípios constitucionais: da liberdade e do pluralismo religiosos e da separação entre o Estado e as igrejas. Falsamente, se pressupõe que religião seria um conteúdo necessário para a formação da cidadania.

ISTOÉ – O pluralismo religioso é respeitado nas escolas públicas?

DEBORA DINIZ – Não. A Lei de Diretrizes e Bases delega aos Estados o poder sobre a definição dos conteúdos e quem são os professores habilitados. Isso não acontece com nenhuma outra matriz disciplinar no País. A LDB diz que o ensino religioso não pode ser proselitista. Apesar disso, legislações de vários Estados – como a do Rio de Janeiro – afirmam que tem de ser confessional. Determinam que seja católico, evangélico.

ISTOÉ – As escolas viraram igrejas?

DEBORA DINIZ – As aulas de ensino religioso, obrigatórias nas escolas públicas, se transformaram num espaço permeável ao proselitismo. Não é possível a oferta do ensino religioso confessional sem ser proselitista. Se formos para o sentido dicionarizado da palavra proselitismo, é professar um ato de fé. É a catequização. O proselitismo é um direito das reli­giões. Mas isso pode ocorrer na escola pública? A LDB diz que não.

ISTOÉ – É possível haver ensino religioso sem ser proselitista?

DEBORA DINIZ – É. A resposta de São Paulo foi defini-lo como a história, a filosofia e a sociologia das religiões.

ISTOÉ – São Paulo seria o melhor exemplo de ensino religioso no País?

DEBORA DINIZ – No que diz respeito ao decreto estadual, segundo o qual o ensino não deve ser confessional, sim. Mas se é o melhor exemplo na sala de aula, não temos pesquisas no Brasil para afirmar isso. A LDB diz que a matrícula é facultativa. Então, também devemos perguntar: o que a criança faz quando não está na aula de religião?

ISTOÉ – O ensino religioso, da forma como está configurado, é uma ameaça à liberdade religiosa?

DEBORA DINIZ – É. Quanto mais confessional for a regulamentação dos Estados, quanto mais os concursos públicos forem como o do Rio – em que o indivíduo tem de apresentar um atestado da comunidade religiosa a que pertence e, caso mude de religião, perde o concurso –, maior é a ameaça. A liberdade religiosa está ameaçada no País e a justiça religiosa também.

ISTOÉ – Há uma tentativa de privilegiar uma ou outra religião?

DEBORA DINIZ – Quase todos os Estados se apropriam do que aconteceu no Rio, nominando as religiões dos professores. No Ceará, por exemplo, o professor tem de ter formação em escolas teológicas. Mas religiões afro-brasileiras não têm a composição de uma teologia formal. Essa exigência privilegia os católicos e os protestantes.

ISTOÉ – Por que o MEC não define o conteúdo do ensino religioso?

DEBORA DINIZ – Há uma falsa compreensão de que o fenômeno religioso é um saber para iniciados, e não para especialistas laicos. Também há um equívoco sobre o que define o pacto político num Estado laico. O fenômeno religioso não é anterior ao fato político. Religião não pode ter um status que não se subordine ao acordo constitucional e legislativo. Isso é verdade em algumas coisas, tanto que o discurso do ódio não é autorizado. O debate sobre a criminalização da homofobia causa tanto incômodo às comunidades religiosas porque resultará em restrição de liberdade de expressão. Não se poderá dizer que ser gay é grave perversão, como algumas fazem atualmente.

ISTOÉ – Os livros didáticos dizem…

DEBORA DINIZ – Dizem porque há essa lacuna de regulação e de fiscalização. Há uma subordinação do nosso pacto político ao fato religioso. O que é um equívoco. Também há uma falsa presunção de que o saber religioso não possa ser revisado. O MEC tem um painel em que todas as controvérsias científicas são avaliadas por uma equipe que diz o que pode e o que não pode entrar nos livros didáticos. A despeito de pequenas comunidades no campo da biologia dizerem que criacionismo é uma teoria legítima sobre a origem do mundo, o filtro do MEC diz que criacionismo não é ciência. Por que, então, o MEC não define o que pode entrar nos livros de ensino religioso e os parâmetros curriculares?

ISTOÉ – O que os livros didáticos de religião pregam?

DEBORA DINIZ – Avaliamos 25 livros didáticos de editoras religiosas e das que têm os maiores números de obras aprovadas pelo MEC para outras disciplinas. Expressões e valores cristãos estão presentes em 65% deles. Expressões da diversidade cultural e religiosa brasileira, como religiões indígenas ou afro-brasileiras, não alcançam 5%. Muitas tratam questões como a homofobia e a discriminação contra crianças deficientes de uma maneira que, se fossem submetidas ao crivo do MEC, seriam reprovadas. A retórica sobre os deficientes é a pior possível. A representação simbólica é de quem é curado, alguém que é objeto da piedade, que deixa de ser leproso e de ser cego. É a do cadeirante dizendo obrigado, num lugar de subalternidade.

ISTOÉ – A submissão ao sagrado é estimulada?

DEBORA DINIZ – É uma submissão ao sagrado, à confessionalidade. Mas a confessionalidade não se confunde com o sagrado. O sentido do sagrado pode ser explicado. No caso do “Alcorão”, é possível explicar que a escrita tem relação com a história do islamismo. Não precisamos de livros que violem o sagrado, que digam que Maria não era virgem. Mas eles não precisam se submeter à confessionalidade, dizer que há só uma verdade.

ISTOÉ – Há um estímulo ao preconceito e à intolerância nos livros?

DEBORA DINIZ – Sem dúvida. Há a expressão da intolerância à diversidade – das pessoas com deficiência, da diversidade sexual e religiosa, das minorias étnicas. Há, também, uma certa ironia com as religiões neopentecostais.

ISTOÉ – A ideia da supremacia moral dos que têm religião é defendida?

DEBORA DINIZ – É. Há equívocos históricos e filosóficos, como a associação de ­Nie­tz­s­che ao nazismo. As pessoas sem Deus são representadas como uma ameaça à própria ideia do humanismo. É muito grave a representação dos ateus. Isso pode gerar desconforto entre as crianças cujas famílias não professem nenhuma religião. Já que, nos livros, elas estão representadas como aquelas que mataram Deus e associadas simbolicamente a coisas terríveis, como o nazismo.

ISTOÉ – As aulas facultativas podem se tornar uma armadilha?

DEBORA DINIZ – Sem dúvida. A criança terá de explicar suas crenças, o que deveria ser matéria de ética privada. Pior: ao sair da aula com um livro como esse, as crianças talvez tenham de explicar por que não têm Deus.

ISTOÉ – Não há reflexões históricas sobre o significado das religiões?

DEBORA DINIZ – Nenhuma. Há uma enorme dificuldade de nominar as comunidades indígenas como possível religião. Elas possuem tradições e práticas religiosas ou magia. No caso das afro-brasileiras, também se fala em tradição.

ISTOÉ – O que levou o Estado a proteger o ensino religioso na Constituição?

DEBORA DINIZ – Foi uma concessão a comunidades religiosas numa disputa sobre o lugar de Deus e da religiosidade na Constituição. A religião foi mantida no que caracterizaria a vida boa e a formação da cidadania. Isso é um equívoco. A religião pode ser protegida pelo Estado, mas não no espaço de promoção da cidadania que é a escola.

ISTOÉ – O ensino religioso está ganhando ou perdendo espaço no mundo?

DEBORA DINIZ – Essa é uma controvérsia permanente. Nos Estados Unidos, um país bastante religioso, não está na escola pública. Na França, o país mais laico do mundo, também não. Exceto na região da Alsácia-Mosele. Na Bélgica e no Reino Unido está. Esses países hoje enfrentam com muita delicadeza a islamização de suas sociedades. Na Alemanha, grupos islâmicos já começaram a exigir o ensino de sua religião nas escolas públicas.

ISTOÉ – Mas na França também há o outro lado, de proibirem vestimentas…

DEBORA DINIZ – Esse é o paradoxo que a França enfrenta neste momento, sobre como respeitar o modelo da neutralidade. A lei do país proíbe símbolos religiosos ostensivos nas escolas públicas – cruz grande, solidéu, véu. O que o outro lado vai dizer? Que isso viola um princípio fundamental, que é a expressão das crenças individuais estar no próprio corpo.

ISTOÉ – Quais são os desafios do ensino religioso no Brasil?

DEBORA DINIZ – São gigantescos e podem ser divididos em três esferas. Uma é a esfera legal. O ensino religioso está sob contestação nos foros formais do Estado: no Supremo, no MEC e no Ministério Público Federal. Além de a lei do Rio de Janeiro estar sendo contestada no Supremo, há uma ação da Procuradoria-Geral da República contra a concordata Brasil-Vaticano, assinada pelo presidente Lula em 2008.

ISTOÉ – E do que trata esta ação?

DEBORA DINIZ – Um artigo da concordata prevê que o ensino religioso na escola pública seja, necessariamente, católico e confessional. Isso é inconstitucional. Estamos falando da estrutura da democracia. Segundo o ministro Celso de Mello, em toda a história do Supremo, só tínhamos tido uma ação que tocava na questão da laicidade do Estado. Isso foi nos anos 40. Agora, temos pelo menos duas. A segunda esfera é como o ensino religioso pode ou não pode ser implementado. O MEC precisa definir quem serão os professores, como serão habilitados e quais conteúdos serão ensinados. A terceira esfera é a sala de aula, a garantia de que vai ser um ensino facultativo e de que o proselitismo religioso será proibido.

* Débora Diniz é antropóloga e documentarista. Aos 41 anos, ela já recebeu 78 prêmios por sua atua­ção como pesquisadora e cineasta. Professora da Universidade de Brasília, Debora é autora de oito livros, sendo o último deles “Laicidade e En­sino Religioso no Brasil”.

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segunda-feira, 11 de abril de 2011

Reportagem

Autor: Carlos Orsi

Nos 14 anos em que trabalhei no Grupo Estado, muitas vezes me vi defendendo — em mesas de bar, festas de família, e até na área de cafezinho da redação — os editoriais do Estadão da acusação de que seriam ranhetões, “direitões”, excessivamente conservadores.

Claro, sempre houve um prisma conservador filtrando as análises publicadas na vetusta página 3, mas eu insistia em apontar que, em muitos casos, a essência do que se dizia ali era, se não correta, ao menos apoiada numa argumentação firme o bastante para não poder ser desprezada com um dar de ombros ou o bom e velho “se o Estadão defende X, então X deve ser uma merda”.

Mas eis que, neste sábado, eu abro o jornal e vejo um texto que reduz toda a minha linha argumentativa a pó de traque. Trata-se da análise feita pelo jornal da tragédia do Realengo. O editorial Que nos sirva de alerta não só se abstém de comentar o caráter de fanatismo religioso do crime — mais sobre isso adiante — como ainda joga com o clichê da “falência dos valores humanos em seu embate permenente com o pragmatismo da sociedade de consumo” e, mirabile dictu!, ainda encontra razões para atacar um criador de videogames dos Estados Unidos.

A hipótese de uma “falência dos valores humanos” diante do “pragmatismo” pressupõe uma época, em tempos idos, onde os valores humanos eram uma sólida corporação — mas que, no tempo que separa essa época áurea do presente, foi sendo acossada pelas pressões do “pragmatismo da sociedade de consumo” contemporânea, entrou em concordata e agora caminha para a liquidação extrajudicial.

Fico imaginando, quando foi que os valores humanos se sobrepuseram ao pragmatismo? Em tempos homéricos, quando Agamenon sacrificou a própria filha para garantir o sucesso da guerra contra Troia? Em tempos bíblicos, quando Abraão não hesitou em prostituir a própria esposa para atrair a boa vontade do faraó do Egito? Talvez na Atenas dos filósofos, sustentada por trabalho escravo? Ou na Roma dos jogos de gladiadores?

Talvez o editorialista estivesse se referindo à Idade Média? As Cruzadas talvez tenham sido impulsionadas mais por valores do que por considerações pragmáticas (o que nos deveria fazer parar para pensar se ter “valores” é uma boa ideia, afinal). Mas então, o que dizer da Quarta Cruzada, que desistiu de atacar os muçulmanos e optou pelo pragmatíssimo saque de Constantinopla?

Parafraseando Bertrand Russell, o que a história ensina é que, no geral, o ser humano não age de acordo com seus valores; em vez disso, ele escolhe os valores que melhor justificam o que já estava com vontade de fazer. Esse pragmatismo, tão cínico quanto, muitas vezes, inconsciente, não foi inventado pela sociedade de consumo ou pela globalização. Está conosco desde que descemos das árvores.

O que me traz ao segundo ponto do editorial, a condenação do designer de videogames que criou um jogo sobre massacres escolares — um jogo que o assassino de Realengo provavelmente nunca viu — e a olímpica omissão da clara inspiração bíblica do crime.

Os “valores” que o assassino escolheu para justificar o que havia decidido fazer não são os de um adolescente tarado por first-person-shooters, mas os do Levítico, um dos livros mais psicopáticos da Bíblia, todo obcecado com questões de pureza e de sacrifícios de sangue. Por exemplo, compare este trecho do livro supostamente sagrado:

19 A mulher que tiver o corrimento menstrual ficará durante sete dias na impureza das regras. Quem a tocar ficará impuro até à tarde. 20 O lugar em que ela deitar ou sentar durante as regras ficará impuro. 21 Quem tocar o leito dela deverá lavar as vestes, tomar banho e ficará impuro até à tarde. 22 Quem tocar um móvel no qual ela esteve sentada deverá lavar as vestes, tomar banho e ficará impuro até à tarde. 23 Se o objeto tocado estiver sobre o leito ou sobre o assento em que esteve sentada, ficará impuro até à tarde. 24 Se um homem dormir com ela, ficará contaminado com a impureza e estará impuro durante sete dias, ficando impuro também o leito em que dormir.

Com este trecho da carta-testamento do assassino:

Primeiramente deverão saber que os impuros não poderão me tocar sem usar luvas, somente os castos ou os que perderam suas castidades após o casamento e não se envolveram em adultério poderão me tocar sem usar luvas, ou seja, nenhum fornicador ou adúltero poderá ter contato direto comigo, nem nada que seja impuro poderá tocar em meu sangue.

A biomédica e escritora Cristina Lasaitis sugere, em seu blog, que o assassino sofria de uma doença mental e que o discurso religioso foi apenas o modo que ele encontrou para dar forma e expressão a seus conflitos íntimos.

Se tivesse outro tipo de formação e outras referências culturais, talvez o assassino escrevesse uma carta com alusões a O Senhor dos Anéis, Guerra nas Estrelas ou, sim, até a videogames (e fico imaginando a onda de caça às bruxas que a imprensa e as autoridades desencadeariam, fosse esse o caso: basta lembrar o circo armado há alguns anos contra os livros de RPG).

Mas como a vestimenta da motivação foi religiosa, o editorialista prefere passar a borracha e culpar a decadência do ocidente e um remoto criador de videogames.

Mas, sim, é bem provável que a religião não tenha tido nada a ver com o crime, da mesma forma que Tolkien, George Lucas — e o game designer — não teriam tido nada a ver, caso as referências da carta fossem outras.

Para encerrar, porém, deixo aqui um fato que você provavelmente não verá mencionado em momento algum da cobertura da tragédia de Realengo: os dois maiores massacres de civis, fora de contexto militar, da história recente foram cometidos por motivação religiosa: o 11 de setembro e o suicídio coletivo de Jonestown. Tire disso a conclusão que quiser.


Texto retirado do site: http://carlosorsi.blogspot.com/2011/04/de-tragedias-e-de-valores.html

domingo, 3 de abril de 2011

Reportagem

Veja a lista de 28 "fichas-sujas" que querem validar candidaturas no Supremo


Improbidade administrativa

Alfredo Pastori (PSL-MG), candidato a deputado federal

Antonio Dias (PDT-SP), candidato a deputado federal

Arnaldo Vianna (PDT-RJ), candidato a deputado federal

Beti Pavin (PMDB-PR), candidata a deputada estadual

Dr. Gilberto Marin (PMDB-PR), candidato a deputado estadual

João Caramez (PSDB-SP), candidato a deputado estadual

Neguinho Teixeira (PSDC-BA), candidato a deputado estadual

Netinho da Saúde (PCdoB-RO), candidato a deputado estadual

Raul Freixes (PTdoB-MS), candidato a deputado estadual

Tereza Jucá (PMDB-RR), candidata a deputada federal

Rejeição de contas

Adib Elias (PMDB-GO), candidato a senador

Bado Venâncio (PSL-PB), candidato a deputado estadual

Caio Riela (PTB-RS), candidato a deputado federal

Ciro Roza (DEM-SC), candidato a deputado estadual

Edson Dantas (PSB-BA), candidato a deputado federal

Gilson Gomes (PSDC-ES), candidato a deputado estadual

Itamar Rios (PTB-BA), candidato a deputado estadual

Júnior de Paulo (PRP-PE), candidato a deputado estadual

Melinho (PSDB-RS), candidato a deputado estadual

Paulo Pastori (PTC-SP), candidato a deputado estadual

Compra de votos

Dr. Dirceu (PSDB-GO), candidato a deputado estadual

Jacó Maciel (PDT-PB), candidato a deputado estadual

José Riva (PP-MT), candidato a deputado estadual

Leonice da Paz (PDT-SP), candidata a deputada estadual

Vitor Sapienza (PPS-SP), candidato a deputado estadual

Renúncia ao mandato

Luiz Sefer (PP-PA), candidato a deputado estadual

Gilmar Carvalho (PR-SE), candidato a deputado estadual

Abuso do poder econômico

Bernardete Ten Caten (PT-PA), candidata a deputada estadual


Reconhece alguém?

quinta-feira, 17 de março de 2011

Artigo



A revolução darwiniana
Daniel Dennett

Não há futuro num mito sagrado. Por quê? Por nossa curiosidade. […] Seja o que for que consideremos precioso, não podemos protegê-lo da nossa curiosidade porque, sendo quem somos, uma das coisas que consideramos preciosa é a verdade. O nosso amor pela verdade é sem dúvida um elemento central no sentido que damos à nossa vida. Em qualquer caso, a ideia de que possamos preservar o sentido da nossa vida à força de nos enganarmos é uma ideia mais pessimista, mais niilista do que eu, pela parte que me toca, consigo engolir.
Se isso fosse o melhor que se pode fazer, concluiria que afinal nada tinha importância. […]
A nossa curiosidade sobre as coisas assume diferentes formas, como Aristóteles assinalou no tratado da ciência humana. O seu esforço pioneiro para classificá-las ainda faz muito sentido. Aristóteles identificou quatro questões básicas sobre qualquer coisa que queiramos responder, e chamou-as aitia, um termo gregoverdadeiramente impossível de ser traduzido, tradicional mas desajeitadamente traduzido por quatro “causas”.
1. Podemos ter curiosidade sobre aquilo de que algo é feito, a sua matéria ou causa material.
2. Podemos ter curiosidade sobre a forma (ou estrutura ou configuração) que essa matéria assume, a sua causa formal.
3. Podemos ter curiosidade sobre a sua origem, como começou, ou sobre a sua causa eficiente.
4. Podemos ter curiosidade sobre o seu propósito ou objetivo ou finalidade (como na pergunta “Será que os fins justificam os meios?”), a que Aristóteles chamou o seu telos, que por vezes se traduz em português, desajeitadamente, como “causa final”.
É preciso alguma ginástica para fazer estas quatro aitia aristotélicas corresponderem a respostas às típicas perguntas portuguesas “o quê, onde, quando e por que”. A correspondência é apenas aproximada. As perguntas que começam com “por que”, contudo, normalmente pedem a quarta “causa” de Aristóteles, o telos de uma coisa. Por quê?, perguntamos. Para que serve? Como dizemos às vezes: qual é a sua razão de ser? Os filósofos e os cientistas reconheceram, durante centenas de anos, que estas perguntas pelo “por que” são problemáticas e de tal modo distintas que o estudo a que dão lugar merece um nome: teleologia.
Uma explicação teleológica é a que explica a existência ou ocorrência de algo fazendo apelo a um objetivo ou propósito a que a coisa serve. Os artefatos são os casos mais óbvios; o objetivo ou propósito de um artefato é a função que o seu criador concebeu para ele. Não há controvérsia sobre o telos de um martelo: serve para martelar e tirar pregos. O telos de artefatos mais complexos, como câmaras de vídeo, caminhões ou scanners é, na pior das hipóteses, mais óbvio. Mas mesmo nos casos mais simples, podemos ver que sempre há um problema de fundo presente:
— Por que razão estás a serrar essa tábua?
— Para fazer uma porta.
— E para que é a porta?
— Para proteger a minha casa.
— E por que razão queres proteger a tua casa?
— Para poder dormir descansado.
— E por que razão queres dormir descansado?
— Vai passear e deixa de me fazer perguntas tolas.

Essa troca de palavras revela um dos problemas da teleologia: para que isso tudo? Que causa final podemos apresentar para completar essa hierarquia de razões? Aristóteles tinha uma resposta: Deus, o Motor Imóvel, o para-quê no qual acabam todos os para-quês. A ideia, que foi aproveitada pelas tradições cristãs, judaicas e islâmicas, é que todos os nossos propósitos derivam em última análise de Deus. A ideia é sem dúvida natural e atraente. Se olharmos para um relógio e nos perguntarmos por que razão tem um vidro transparente, é óbvio que a resposta remete às necessidades e desejos das pessoas que usam relógios, que querem saber as horas olhando para o mostrador etc.. Se não fossem estes fatos sobre nós — para quem o relógio foi criado —, não haveria explicação do “por que” do vidro transparente. Se o universo foi criado por Deus para cumprir os seus propósitos, então todos os propósitos que possamos encontrar no próprio universo têm, em última análise, de estar subordinados aos propósitos de Deus. Mas quais são os propósitos de Deus? Isso é algo misterioso. Uma maneira de afastar o desconforto acerca desse mistério é mudar ligeiramente o assunto. Em vez de responder a pergunta pelo “por que” com uma resposta do tipo “porque” (o tipo de resposta que ela parece exigir), as pessoas substituem muitas vezes a pergunta “por quê?” pela pergunta “como?”, e tentam responder esta última contando uma história sobre como Deus criou a nós e ao resto do universo, sem perder demasiado tempo com a questão de saber exatamente por que razão poderá Ele ter desejado fazer tal coisa. A pergunta pelo “como” não se encaixa na lista de Aristóteles, mas já eram perguntas e respostas populares muito antes de Aristóteles ter apresentado sua análise. As respostas às maiores perguntas pelo “como” são cosmogonias, histórias sobre como o cosmos, o universo inteiro e tudo o que ele contém, passou a existir. O livro do Gênesis é uma cosmogonia, mas há muitos outros. Os cosmólogos que exploram a hipótese do Big Bang, e que especulam sobre os buracos negros e as supercordas, são criadores atuais de cosmogonias. Nem todas as cosmogonias seguem o padrão de um artífice. Algumas envolvem um “ovo do mundo” depositado nas “Profundezas” por uma ave mítica qualquer, e outras envolvem sementes que se deitam à terra e se cuidam. A imaginação humana não dispõe de muitos recursos de que lançar mão quando se confronta com uma questão tão intrigante. Um mito antigo da criação fala de um “Senhor que existe por si” e que, “com um pensamento, criou as águas, depositando nelas uma semente que se transformou num ovo dourado, nascendo ele próprio desse ovo como Brama, o progenitor dos mundos” (Muir 1972, Vol. IV, p. 26).
E qual era o objetivo de todas essas posturas de ovos, sementeiras e construção de mundos? Ou, já agora, qual é o objetivo do Big Bang? Os cosmólogos atuais, à semelhança de muitos dos seus antecessores ao longo da história, apresentam uma história divertida, mas preferem fugir da questão teleológica do “por que”. Será que o universo existe por uma razão qualquer? Será que as razões têm um papel qualquer que se possa compreender nas explicações do cosmos? Será que algo poderia existir por uma razão, sem que se tratasse da razão de alguém? Ou será que as razões — as causas do tipo 4 de Aristóteles — só são apropriadas nas explicações das obras e feitos de pessoas ou de outros agentes racionais? Se Deus não é uma pessoa, um agente racional, um Artífice Inteligente, que sentido poderá ter a mais grandiosa pergunta pelo “por que”? E se a maior pergunta pelo “por que” não tem qualquer sentido, como poderão outras perguntas pelo “por que”, menores e mais simples, ter sentido? Uma das contribuições fundamentais de Darwin é mostrar-nos uma nova maneira de dar sentido às perguntas pelo “por que”. Queiramos ou não, a ideia de Darwin oferece-nos uma maneira — clara, convincente e espantosamente versátil — de dissolver estes velhos enigmas. É preciso tempo para nos habituarmos à sua ideia, e ela é muitas vezes mal aplicada, mesmo pelos seus amigos mais dedicados. […] O que ganhamos é, pela primeira vez, um sistema explicativo estável que não anda às voltas nem entra numa espiral infinita de mistérios.
Aparentemente, algumas pessoas preferem a regressão infinita de mistérios, mas hoje em dia o custo desta estratégia é proibitivo: deixar-se enganar. Podemos enganar a nós próprios, ou deixar essa tarefa a outras pessoas, mas não há uma forma intelectualmente defensável de reconstruir as poderosas barreiras à compreensão que Darwin derrubou.
autor: Daniel Dennett
tradução: Álvaro Augusto Fernandes
original: A Perigosa Ideia de Darwin. Lisboa: Temas e Debates. 2001, pp. 20-24.
fonte: Crítica